O VIDEIRINHO

domingo, novembro 13, 2011

DEITADOS

 .


Olhos cerrados, boca entreaberta, pertinho da minha. 

Os meus lábios quase roçando os seus lábios. 

Noto o seu hálito. 

Está adormecida.

Afasto com cuidado o lençol. 

Pouco a pouco. 

Emergem os seus ombros, a leve curva dos seus seios. 

Aproximo o meu olho direito do piercing do seu mamilo direito. 

É um aro ou argola com uma pequena bola metálica (já tinha reparado nele ontem à noite). 

Vejo-me reflectido na bola. 

O meu nariz vê-se grande na bola e o meu pómulo pequeno e distorcido, como muito longe. 

Toco sem querer o seu mamilo direito com a ponta do nariz. 

O meu nariz ou o seu mamilo é suave. 

Ou ambos. 

Nunca o saberei. 



Afasto mais o lençol e detenho-me nas complexas pregas do seu umbigo. 

Deus estava doente. 

Deito a língua de fora. 

Sabe a sal. 

A cicatriz de seu cordão umbilical esconde o afluir de todos os mares. 

Duas ilhas nas suas ancas, um vale seco e um sumidouro. 

E do outro lado dos contornos das suas ancas, o nada. 

Ou a cama. 

É o mesmo. 

Agora faço deslizar o lençol com os dentes. 

Pouco a pouco, compõe-se a figura do seu sexo no eixo das suas pernas. 



Aproximo-me por cima. 

Cheira a electricidade estática. 

A perigo. 

Um pote de mel vazio. 

A isóbara. 

Chupo o dedo e introduzo-o no seu sexo com cuidado. 

Percorro as suas paredes com a polpa dos dedos. 

Braille húmido. 

Sou um cego a ler a Bíblia. 

Afasto-me. 

Volto a deitar-me a seu lado. 

Não sei o seu nome. 

Apenas nos conhecemos ontem. 

No meu táxi. 

As circunstâncias não importam. 

O seu nome não importa. 

Agora dorme. 

Profundamente. 

É tudo.

28FEV2011
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2 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

Estou a ver que a malta dos táxis safa-se bem. É pena não serem taxistas (no feminino), como sou pobre, e não tenho dinheiro para transporte próprio, ando sempre de táxi, e não seria mau ter as motoristas a levar os clientes para a pensão, clientes do táxi, claro.

xistosa, josé torres disse...

Táxi Pluvioso

Será que se safam?

... e para a pensão, claro!