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Quando temo cair, amparo-me nos edifícios.
Se eles não caem, que foram construídos pelo homem, eu sou homem e também não caio.
Raios me partam!
Ainda que tenha que apoiar as minhas costas neles (nos edifícios, não nos homens, nada de confusões).
Ainda que tenha de meter um pau pelo dito cujo acima.
Ainda que tenha que sacar o líquido sinovial dos joelhos.
Não cairei!
Isto é um hino à vida.
Não o esqueçais.
Quando temo chorar, choro.
Gosto de chorar na banca de cozinha, enquanto lavo os pratos.
E nas salas de embarque dos aeroportos.
E no corredor dos produtos lácteos dos supermercados.
Nunca em bares ou discotecas.
Nos bares só choram os amadores.
Os abichanados.
Os advogados.
Quando temo cair, olho-te o traseiro.
Tenho especial predilecção pelas donas de casa.
Seduzi-las.
Acrescentar-lhe um asterisco em código para a sua lista de compras.
Encher de flores os seus suspiros.
Gerar segredos.
As vidas cristalinas são lupas para o sol e provocam incêndios.
Temos que ser opacos, ser o outro, sempre o outro.
O mar na dieta sem sal das sereias.
Quando não quero, escondo-me no meu táxi.
Levo um bigode postiço no porta-luvas.
Ponho outras vozes que não são a minha voz.
Baixo a cabeça condignamente.
Encho de bafo o espelho e desenho corações e estetoscópios.
Invento canções.
Desafino mas não me escuto porque gosto de mim.
Isto é um canto à vida.
Não o esqueças.
28ABR2011
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