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As cordas vocais puxam por ti.
Não falas: é o decoro, o costume.
Formulas-me perguntas cujas respostas, na realidade, já conheces ou não te importam.
É o caso de encheres o vazio sonoro do trajecto.
Um acordo não escrito entre ambos: eu conduzo, tu dás-me conversa da treta.
São sempre as mesmas perguntas, em cada táxi (dois ou três… por dia):
- “Então como vai a tarde, chefe?”;
“Está negra esta coisa com a crise, não é verdade?”;
“Está um frio do caraças, não acha?”.
São perguntas cómodas e universais, sempre relaxadas porque conheces de antemão as respostas.
Se o motorista (eu) respondeu com um monossílabo, sabes que eu não sinto vontade de falar.
Se o taxista se alonga suavizando, continuas com o teu mostruário de frases feitas, comuns até não poderes mais, cuidadosamente assépticas, neutrais.
Domina um amplo leque.
A tua proferida:
“Os políticos são todos iguais”.
Com esta não falhas.
Dão-te sempre razão.
E no fim do trajecto, ao saíres do carro, deixarás o habitáculo tão vazio com antes.
Não terás aprendido nada; tão-pouco o taxista.
Absurda maneira de encher o silêncio.
Será isso?
Encher o silêncio de ruído.
Evitar o silêncio para não pensar.
Ou despertar a atenção do motorista como quem lança foguetes numa praça lotada.
Ou sentir-se integrado no mundo.
Cómodo no pensamento único.
Mais um, um de muitos.
Sem voto mas com voz.
O rei dos mortos vivos.
17FEV2011
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