O VIDEIRINHO

segunda-feira, novembro 07, 2011

VACUIDADES

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As cordas vocais puxam por ti. 

Não falas: é o decoro, o costume. 

Formulas-me perguntas cujas respostas, na realidade, já conheces ou não te importam. 

É o caso de encheres o vazio sonoro do trajecto. 

Um acordo não escrito entre ambos: eu conduzo, tu dás-me conversa da treta. 

São sempre as mesmas perguntas, em cada táxi (dois ou três… por dia): 
- “Então como vai a tarde, chefe?”; 
“Está negra esta coisa com a crise, não é verdade?”; 
“Está um frio do caraças, não acha?”. 

São perguntas cómodas e universais, sempre relaxadas porque conheces de antemão as respostas. 

Se o motorista (eu) respondeu com um monossílabo, sabes que eu não sinto vontade de falar. 

Se o taxista se alonga suavizando, continuas com o teu mostruário de frases feitas, comuns até não poderes mais, cuidadosamente assépticas, neutrais. 




Domina um amplo leque. 

A tua proferida: 
“Os políticos são todos iguais”. 

Com esta não falhas. 

Dão-te sempre razão. 

E no fim do trajecto, ao saíres do carro, deixarás o habitáculo tão vazio com antes. 

Não terás aprendido nada; tão-pouco o taxista. 

Absurda maneira de encher o silêncio. 

Será isso? 

Encher o silêncio de ruído. 

Evitar o silêncio para não pensar. 

Ou despertar a atenção do motorista como quem lança foguetes numa praça lotada. 

Ou sentir-se integrado no mundo. 

Cómodo no pensamento único. 

Mais um, um de muitos. 

Sem voto mas com voz. 

O rei dos mortos vivos.
17FEV2011
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