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Baixei o vidro da janela do carro e ao passageiro quase lhe voava a peruca.
Por sorte, foi bastante rápido: segurou-a com a mão na cabeça e manteve-se em silêncio, até que reparei nele e voltei a fechar o vidro.
Chamou a minha atenção a naturalidade com que aquele tipo segurou a sua prótese contra o vento como quem segura um chapéu.
A peruca já era parte dele, um prolongamento da sua própria personalidade sem a qual se sentiria nu, incómodo, diferente.
Imaginei-o em sua casa, lavando a peruca com champô protésico no escorredouro da banca de cozinha, secando-a com um secador de mão e penteando-a antes de encaixá-la na cabeça.
Procurando imediatamente que o cabelo irreal do telhado se funda com o escasso cabelo real das têmporas e da nuca, numa união que ninguém perceberia e que eu também não me apercebi (a não ser pelo vento).
Soa estranho que o maior inimigo daquele homem fosse o vento, que só o vento pudesse destapar um segredo medido ao milímetro.
Todos temos os nossos pontos fracos ou débeis, “esses” segredos inconfessáveis, “essas” rachadelas na parte macia da alma.
Neste caso, o seu ponto fraco, dependia da parte meteorológica.
Enfim…
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