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É este individualismo atroz o que me aterroriza: eu ocupo-me
do meu e dos meus, que também ‘são’ eu.
O meu, neste caso, é o dinheiro, mas
também a viciante e crescente sensação de poder que o envolve.
À maior sensação
de poder, mais amplo será o muro que os isola do ruído.
Já podes gritar para o
outro lado, inclusivamente matar-te, que o muro aguentará e protegerá “o meu” e
“o dos meus”, que é o único que importa.
Ao invés do que possa parecer, os
realmente “meus” não são tantos, apenas eles sozinhos e a sua prole.
Aliás, militam num grupo porque é assim que se faz: entrando primeiro por baixo
ou por amiguismo.
Dedicam-se depois a fazer favores a todo aquele que está
melhor posicionado (aí não se importam de ser servis, chamam-lhe investimento a
longo prazo).
E enquanto os de “mais acima” vão ganhando pouco a pouco a sua
confiança, eles vão guardando num baú, com chave, os trapos sujos dos outros,
nunca se sabe quando serão necessários.
E se os seus falsos mentores ascendem a
outros escalões no público ou no privado, tocará o telefone:
- O que há para mim?
Não esqueças nunca quem te fez um favor, porque em algum dia terás que lho
devolver (excepto se o outro acaba no cárcere: aí negarão, debaixo juramento,
ter-te chamado “amigo do peito”).
Entretanto à medida que trepam no poder, também
crescerá a sua sensação de impunidade.
Para isso se inventaram os indultos
(quem assinar uma confissão de culpa, em que assumiu ter saído ilegalmente de Portugal,
com dinheiro, para paraísos fiscais, teve a garantia de ter assinado uma factura
em que compra a inocência; esta factura é arquivada no esquecimento do Fisco; pagou 7,5% de imposto, dos milhões sonegados no branqueamento dos impostos e
ficou livre.
Quem comer um pão, já sabe, paga 6% de IVA).
É atroz, como digo,
porque uma vez instalados nessa espiral do "narcisismo” todos os outros lhes
importarão um chavo.
Ao menos que tu trepes aos meus ombros, o outro que trepe
nos teus e entre todos saltemos o muro.



1 comentário:
Ui!
"Não esqueças nunca quem te fez um favor, porque em algum dia terás que lho devolver" - isto vale para tanta coisa. Hoje ninguém dá nada a ninguém.
«espiral do "narcisismo"» - é isso!
Boa reflexão!
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