.
Para encerrar de uma assentada todos os meus traumas, renunciei ao passado queimando-o.
Melhor dito: afoguei-o primeiro, deixei que secasse e depois queimei-o.
Meia garrafa de whisky, um isqueiro e sete álbuns de fotografias.
Depois enterrei as cinzas, não me recordo onde.
No típico bosque onde vão os criminosos e rebeldes para ocultar os seus cadáveres, suponho.
Desde então, para evitar novos traumas, esqueço-me de mim a cada dia.
Desperto com cara de assombrado ou espantado, tomo um duche frio para ‘sentir-me’, saco do meu táxi usando identidades que invento e ao cair da noite, emborracho-me.
Bebo até esquecer o meu nome.
Nada liberta mais do que perder a identidade.
Nada reconcilia mais que chegar a casa sendo um perfeito ‘Zé ninguém’ ou “Dom nada” e dormir com pijama de fraque abraçado ao mesmo chapéu de coco que roubaste aquela vez no casino.
Já sei que a minha ausência de traumas derivará em cirrose.
Nunca disse que este plano fosse perfeito.
Mas por mais que os vermes se disfarcem de cinzas, por mais que beba como se não houvesse um amanhã, consigo a cada dia esquecer o meu nome mas não o teu.
Estás sempre presente por aí, tatuada nalguma parte que não encontro, como um tumor fantasma, tão maligno como a minha potencial cirrose.
Recordo-te em cada foto que enterrei, na sombra que projectam os semáforos (o âmbar que pisca são os teus seios palpitando) e no fundo de todos os copos de whisky de todos os bares do mundo.
E regresso à rua cada vez mais aturdido, cada vez com mais medo de encontrar-te.
Se fui ninguém contigo, agora sou nada sem ti.
.



Sem comentários:
Enviar um comentário