O VIDEIRINHO

terça-feira, outubro 16, 2012

PORTA-MOEDAS

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- Só um segundo, vou ali à farmácia e regresso já. 
Deixo aqui as minhas coisas. 

A passageira saiu do táxi só com o seu porta-moedas e marchou a  correr à farmácia. 

Instantes depois, desde as tripas da sua bolsa, começou a soar um telemóvel. 

Em qualquer outra circunstância tê-lo-ia deixado estar, mas já eram nove da noite e ainda estava a seco de paparrotices para o meu blog. 

Corroído pela ausência de musas meti a mão na sua bolsa, saquei o telemóvel e pressionei a tecla de atender. 

Não disse nada. 

Adiantou-se a voz de um homem: 

- Não venhas a minha casa, Carla. 
Pensei melhor e decidi voltar a tentar com a minha mulher. 
Acabo de falar com ela ao telefone e vem a caminho. 
Ligo-te para te advertir. 
O nosso relacionamento não faz sentido, entende isto. 
Na realidade nunca o fez.


Aí desliguei. 

Sobressaltado, voltei a colocar o telemóvel na bolsa dela. 

Nesse instante entrou a Carla com uma saca da farmácia. 

Não cheguei a distinguir o que continha. 

- Agora leve-me a Damião de Góis esquina com S. Brás, disse-me. 

Reiniciei a marcha e circulámos em silêncio. 

O seu rosto parecia jovial. 

Um montão de semáforos depois, ao chegar ao destino, Carla pagou-me a corrida e saiu do táxi com um molho de chaves na mão. 

Supus que seriam as chaves de casa dele o que acrescentou verdadeiro suspense ao assunto. 

Também me fixei no porta-chaves: era meio coração de metal com um “M” gravado.


Entrou no átrio e eu mantive-me parado no mesmo sítio. 

Algo me dizia que apenas tardaria um momento em descer e procurar outro táxi. 

Mas ao fim de cinco minutos, no lugar dela, saiu outra mulher. 

E ao ver o meu táxi, fez-me sinal e entrou batendo com a porta com toda a força. 

Tinha os olhos vítreos, chorosos e o rímel esborratado. 

- Para o Bessa Hotel, por favor. 

Nisto meteu um porta-chaves, com chaves, na sua bolsa. 

O seu porta-chaves também era um mesmo meio coração de metal, mas com outra letra gravada. 

Neste caso a letra “C”.
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4 comentários:

Tétisq disse...

As coisas que um taxista vê...

Boa noite!

xistosa, josé torres disse...

Para além do que se passa na estrada...

Táxi Pluvioso disse...

Porta-moedas, sim, lembro-me, era uma coisa onde se levava o dinheiro, no tempo em que tínhamos dinheiro.

xistosa, josé torres disse...

Táxi Pluvioso

... sim, as moedas, porque agora só há notas.
Notas de crédito, notas do Fisco, notas da mercearia, notas..., enfim, notificações que é palavra mais apalavrada.