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Valentim, nome fictício, trabalha, por baixa remuneração, para um conhecido escritor de best-sellers (cuja identidade não posso revelar e não é por falta de vontade: ficaria deleitado desmascarar este cretino).
Segundo Valentim, o famoso romancista só publicou duas obras escritas pelo seu próprio punho e letra, a primeira das quais teve pouca ou nenhuma repercussão. Foi na segunda quando se deu uma explosão inesperada: assinou com uma grande editora e, para surpresa de todos, editora incluída, começou a vender milhares de exemplares, até se converter num escritor de best-sellers de fama internacional.
Em apenas meia dúzia de meses não só alcançou a categoria de escritor de culto; também ganhou mais dinheiro do que aquele que alguma vez pode ter chegado a imaginar.
O problema chegou-lhe depois, quando a editora e o público começaram a instá-lo para que escrevesse um terceiro romance.
A editora propôs-lhe um prazo anexando um novo cheque com muitos zeros como adiantamento.
O escritor aceitou o dinheiro e o prazo marcado e enclausurou-se, confiando plenamente no poder das suas musas inspiradoras.
Mas as musas voltaram-lhe as costas.
Talvez que, vítima de tão altas expectativas, com medo de não estar à altura do seu último grande sucesso, ficou “em branco”, completamente bloqueado.
Mas em vez de se render, em vez de devolver o cheque e desaparecer de cena por uns tempos, o famoso escritor contactou, através dos esgotos deste mundo cão com Valentim, “escravo” de profissão.
Valentim aceitou o trabalho por uma ridicularia e depois de estudar o estilo e o enredo dos seus romances anteriores, não só conseguiu cumprir o prazo, como também com as expectativas: o terceiro romance, escrito integralmente por Valentim, com assinatura do famoso romancista, foi outro retumbante êxito nas vendas.
Ninguém, nem sequer a editora, nem a crítica especializada, deu conta da fraude.
E depois deste terceiro, veio um quarto, também escrito na sombra de Valentim.
Nos últimos tempos, o falso escritor concedeu centenas de entrevistas e tem ido a dezenas de actos, por uns romances que jamais chegou a escrever, fazendo-se passar por alguém que já não é.
E Valentim, pela sua parte, não se importa absolutamente nada.
Continua a escrever para ele e continuará a fazê-lo.
Sempre na sombra.
Valentim é um cliente habitual do meu táxi.
Foram dezenas de trajectos e muita confiança conhecer os mistérios desta história.
A história de um ego de papelão, modéstia à parte.
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1 comentário:
Fiquei com medo de ler escritores vivos com medo de estar a sustentar uma fraude...devem existir muitos escritores na sombra e nós leitores incautos não percebemos...
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