O VIDEIRINHO

segunda-feira, setembro 09, 2013

LUNETA INÓCUA

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Nunca tinha visto um monóculo e muito menos esquecido no banco traseiro do meu táxi. 

Encontrei-o por casualidade ao limpar os tapetes. 

No princípio pensei que era a metade de uns óculos que alguém pôde esquecer e partir sem querer, mas ao pegar-lhe não encontrei fissura alguma, senão um aro circular e perfeito com uma só lente bastante fina. 

A verdade é que ao pegar-lhe, não pude evitar deixar-me levar pela curiosidade e tratei de colocá-lo na cavidade do olho. 

Tive que elevar a sobrancelha e contrair um pouco o pómulo, mas uma vez encaixado, não me foi difícil mantê-lo no sítio ainda que, isso sim, sem pestanejar. 

Impossível fechar a pálpebra. 

No entanto estranhei ver tudo exactamente igual através daquela lente. 

Parecia não ter graduação. 

 

Para que serviria então? 

Tratar-se-ia só de um enfeite? 

Guardei-o e voltei para o trabalho. 

Procurei uma postura de táxis e, enquanto esperava a minha vez, assaltou-me a tentação de o colocar só para ver como reagiam os clientes. 

Assim que acabei de colocar o monóculo no olho, uma mulher abriu a porta, entrou e sem sequer um olhar, indicou-me o seu destino. 

Ela não se fixou em mim, mas a mim sucedeu-me algo estranhíssimo. 

Observada pelo olho esquerdo, pareceu-me uma mulher do mais normal que se possa imaginar, mas com o olho do monóculo, ficava muito mais atraente, como que cheia de tonalidades espantosas. 

Cheguei a fixar-me, inclusivamente, numa pequena cicatriz por baixo do lábio que lhe dava um toque de mais sexy. 


Mas não me aconteceu só com ela. 

Ao iniciar a marcha, a rua, os edifícios e as árvores pareceram-me muito mais belos através do monóculo. 

Então dei conta do motivo. 

Não era a lente a culpada, mas sim a impossibilidade de fechar a pálpebra por culpa do monóculo. 

Era essa fracção de segundo de cada pestanejar que até agora me faziam ver o mundo com intervalos e que portanto, existiam coisas que me escapavam. 

No entanto esse outro olho sempre aberto, obrigava-me a permanecer num perpétuo assombro. 

Por isso acabei por comprar outro monóculo e agora vou com os dois e tudo é novo. 

É fascinante.
18FEV2013
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1 comentário:

Táxi Pluvioso disse...

Os monóculos serviam para subir na tropa, para chegar a general.