.
Algumas
vezes descritas como a manifestação irrepetível de uma distância, as cartas de
amor estão a sofrer uma mutação na era do correio electrónico.
Já não há papel,
tão-pouco uma madeixa de cabelo ou rastos de rouge.
É certo que a voz ao
telefone (que agora se chama telemóvel) agrega textura ás mensagens: sussurro,
cadência, tom de voz.
Mas no outro extremo da linha o mail dilui a áurea.
A
mensagem viaja desnuda e nem sequer há nada que assegure de não ser interceptada
por outra máquina.
À margem da tecnologia as mensagens de amor permanecem nas
mãos dos fantasmas que, como disse Franz Kafka (que odiava cartas) a MilenaJesenská, “Escrever cartas, no entanto, significa despir-se ante os fantasmas que o esperam avidamente. Os beijos por escrito não chegam ao seu destino,
bebem-nos pelo caminho os fantasmas”.
Com frequência o discurso amoroso é pura
auto-referência.
O emissor fala de si mesmo, sem pensar demasiado no outro.
Mas,
se bem que nem todas as cartas chegam ao destinatário (adverte Jacques Lacan),
todas chegam ao destino.
.


1 comentário:
Claro que morreram, privatizaram os CTT.
Enviar um comentário