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Eu sei que é irracional, uma dessas taras que me obscurecem o
discernimento.
Refiro-me a sentir ciúmes do teu passado, refiro-me a sofrer com
as impressões de outras mãos na parte traseira das tuas coxas, impressões que
esqueceste, que dizes ter esquecido ainda que possas cruzar os dedos enquanto
descruzas as pernas.
Beijo-te e não posso evitar pensar em ti mas com outro e
cerro os olhos fortemente, aperto os punhos fortemente debaixo da almofada,
enrugando o lençol ou projectando nele a foto impressa da sua sacana
carantonha.
E apago o WiFi da memória, mas há um hacker ou um infiltrado dentro,
mais parvo que eu mas mais musculoso.
Um imbecil infiltrado, um vendido.
Esse
que se esconde sempre que vou ao psiquiatra.
Esse que se ocupa a incendiar a
raiva disfarçado de bombeiro.
E trato de concentrar-me e refugiar-me nas dunas
dos teus seios.
Mentem os teus mamilos?
Salta o mecanismo por despeito?
Gemes
porque o diz o guião?
Gemias assim tão fortemente com ele?
A sua língua era
mais suave, os seus dedos mais cegos, o seu fogo mais vermelho?
Acaricias-me a
cabeça e procuro no teu gesto uma trégua: massajar ou envolver as minhas
dúvidas.
Mas muito mais irracional que os ciúmes é notar a minha crescente
erecção, não poder evitar esta erecção apesar dos meus demónios.
Como se o
efeito desses ciúmes só me afectaram até ao umbigo, ou o veneno que me aflui
mutasse em Viagra.
E invisto e não comprovo.
É a raiva, é o desejo.
Só procuro
bombear qualquer resquício seu no teu interior, esvaziar-te das tuas impressões,
procurar-te com a ponta do meu orgulho o botão de Reset.
Que te apagues e
acendas.
Que ardam os teus fundamentos, os teus passos, os meus pesos de
consciência e as nossas casas tremam e desmoronem sobre o caminho que antes
seguíamos, a dança que serás para mim.
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