O VIDEIRINHO

terça-feira, setembro 17, 2013

MUTANTE

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Eu sei que é irracional, uma dessas taras que me obscurecem o discernimento. 

Refiro-me a sentir ciúmes do teu passado, refiro-me a sofrer com as impressões de outras mãos na parte traseira das tuas coxas, impressões que esqueceste, que dizes ter esquecido ainda que possas cruzar os dedos enquanto descruzas as pernas. 

Beijo-te e não posso evitar pensar em ti mas com outro e cerro os olhos fortemente, aperto os punhos fortemente debaixo da almofada, enrugando o lençol ou projectando nele a foto impressa da sua sacana carantonha. 

E apago o WiFi da memória, mas há um hacker ou um infiltrado dentro, mais parvo que eu mas mais musculoso. 

Um imbecil infiltrado, um vendido. 

 

Esse que se esconde sempre que vou ao psiquiatra. 

Esse que se ocupa a incendiar a raiva disfarçado de bombeiro. 

E trato de concentrar-me e refugiar-me nas dunas dos teus seios. 

Mentem os teus mamilos? 

Salta o mecanismo por despeito? 

Gemes porque o diz o guião? 

Gemias assim tão fortemente com ele? 

A sua língua era mais suave, os seus dedos mais cegos, o seu fogo mais vermelho? 

Acaricias-me a cabeça e procuro no teu gesto uma trégua: massajar ou envolver as minhas dúvidas. 

Mas muito mais irracional que os ciúmes é notar a minha crescente erecção, não poder evitar esta erecção apesar dos meus demónios. 

 

Como se o efeito desses ciúmes só me afectaram até ao umbigo, ou o veneno que me aflui mutasse em Viagra. 

E invisto e não comprovo. 

É a raiva, é o desejo. 

Só procuro bombear qualquer resquício seu no teu interior, esvaziar-te das tuas impressões, procurar-te com a ponta do meu orgulho o botão de Reset. 

Que te apagues e acendas. 

Que ardam os teus fundamentos, os teus passos, os meus pesos de consciência e as nossas casas tremam e desmoronem sobre o caminho que antes seguíamos, a dança que serás para mim. 
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