De repente surgem as tendências, como na moda.
Agora fala-se na neurociência e nas correntes que tentam racionalizar um pouco, os estados emocionais dos humanos.
Dentro desses estados está o êxtase amoroso dos humanos, o mais maravilhoso e mesquinho estado, que todos já vivemos nalgum momento.
Não sei como definir a paixão, mas mostro-vos estas duas:
- Quando se fala de estar loucamente apaixonado exagera-se; normalmente está-se apaixonado como um abestalhado, um paspalho, (Noel Clarasó)(*).
- Há quem tenha nascido para se apaixonar por uma só mulher e, consequentemente, não é provável que tropece nela, (José Ortega y Gasset)(**).
A paixão tem sofrido de uma fama imerecida ao longo dos tempos, que finalmente a ciência está a começar a colocar em realce o sobre valorado e idealizado estado emocional.
Em traços gerais, uma pessoa quando está apaixonada por outra, tende a idealizar essa pessoa, não ouve as críticas sobre ela e geralmente nubla-se-lhe o juízo ante qualquer coisa relacionada com ela.
Descrita assim, certamente que a paixão não parece nada agradável, mas todos somos adictos à dopamina e como as drogas estão mal vistas, só nos resta mesmo apaixonarmo-nos para conseguir um estado continuado de euforia, ainda que em em muitas ocasiões seja o preâmbulo do inferno.
O estado da paixão consegue de nós, as mais altas cotas de estupidez:
- Acreditar que aquela pessoa é o amor da nossa vida e o facto de termos passado por esse transe mais do que uma vez e portanto, termos tido tantos amores da nossa vida como fracassos, não faz que a primeira afirmação seja menos certa, ELA/ELE é o AMOR DA MINHA VIDA.
- A afirmação de que não há duas pessoas iguais, deixa de ser uma obviedade, para elevar-se à categoria de façanha, de marco pessoal.
Não há nada como ELA/ELE.
- Não importa a idade com que nos apaixonamos, a partir desse momento não concebemos a nossa vida sem essa pessoa.
Não posso viver sem ELA/ELE.
- Pouco importa que te tenhas apaixonado por uma bruxa sem escrúpulos ou de um autêntico pastrano misógino.
Nenhuma crítica será aceite quando se fala do nosso amor, porque ELA /ELE é perfeita(o).
Erich Fromm, (***), no seu magistral livro, "A Arte de Amar" eleva à categoria da arte, amar sem cair no irracional estado de paixão.
A alienação que produz a paixão conduz as relações a um ponto quase simbólico,
por um lado:
"A forma passiva da união simbiótica é a submissão, ou, para utilizar o termo clínico, o masoquismo.
A pessoa masoquista escapa do intolerável sentimento de isolamento e separação, convertendo-se em parte de outra pessoa que a conduz, a guia, a protege, que é a sua vida e o ar que respira, por assim dizer".
Por outro:
"A forma activa de fusão simbiótica é a dominação ou, para utilizar o termo correspondente a masoquismo, o sadismo.
A pessoa sádica quer escapar da sua solidão e da sua sensação de estar aprisionada, fazendo do outro indivíduo uma parte de si mesmo.
Sente-se engrandecida e realçada incorporando a outra pessoa que a adora."
Perante isto, cabe-me perguntar se, apaixonarmo-nos, é o marco que procuramos dentro das nossas relações?
Desde logo, perante o panorama que descrevi, o autêntico marco seria lograr o que alguém chamou de "amor maduro", que segundo as palavras de Erich Fromm é:
"maduro, significa união, com a condição de preservar a própria integridade, a própria individualidade.
O amor é um poder activo no homem; um poder que atravessa as barreiras que separam o homem do seu semelhante e o une aos demais; o amor capacita-o para superar o seu sentimento de isolamento e separação e não obstante, permite-lhe ser ele mesmo, manter a sua integridade.
No amor dá-se o paradoxo de dois seres que se convertem em um e, não obstante, continuam a ser dois".
A ideia de viver enamorado toda a vida é uma utopia tão absurda como contraproducente que não deixa de ser animada em películas e livros, em qualquer história de amor que se preze.
Conseguindo que o amor deixe de estar inspirado pelos nossos instintos mais básicos que nos impelem para o acasalamento como função de preservação, que fluem nas nossas mentes, conseguiremos elevar o acto de amar a algo mais que um instinto ou reacção bioquímica.
Se conseguimos chegar a esse estado, lograremos compreender a autêntica natureza do amor como uma actividade elevada realmente à categoria de arte, como uma actividade de generosidade para com outra pessoa.
(Noel Clarasó [1905-1985], escritor espanhol de livros policiais, psicologia, de terror tendo o humor sempre presente.)
(**)
(José Ortega y Gasset, ([1883-1955), escritor filósofo espanhol e jornalista.)
(***)
(Erich Fromm (1900 - 1980), psicanalista nascido na Alemanha, mas que com a ascensão de Hitler foi para os EUA. Das diversas obras, destaco "A Arte de Amar" e a sua obra prima, "Método da Liberdade").
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2 comentários:
Achei absolutamente fantastico!! é incrivel como as tais hormonas (nao desfazendo das outras) são capazes de controlar tanta coisa nas pessoas que tantas vezes se dizem senhoras de si..
O post apresenta visoes muito sabias e elucidativas!!
Vou voltar um dias destes..
continue o bom trabalho =D
abraço,
carina
carina
Estou com gravíssimos problemas no m/computador.
Ou melhor, ESTIVE, porque perdi tudo...
Não posso desenvolver o post, pois esta #fonte é emprestada.
Obrigada e
INTÉ!!!
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