Com o afã do primeiro dia de colégio, ou talvez por falta de
habituação, a passageira deixou esquecido o tupperware do seu filho, no assento
traseiro do meu táxi.
Na realidade eram dois tupperwares e uma embalagem
pequena de sumo, tudo metido numa pequena mala térmica, a típica marmita ou
lancheira.
A fulana e o seu filho (de uns oito anos, gorducho e com cara de queijo da serra) saíram à porta de um colégio imenso e quando reparei no seu esquecimento,
pensei em dar a volta e entrega-la na secretaria.
Mas imediatamente interiorizei algo: um rapaz de oito anos com uma mochila cor-de-rosa da Barbie, sem qualquer
dúvida que ia convertê-lo no bobo da corte de todo o colégio.
E aquela mãe,
enfim, estava a criar um monstro.
Não sei se fiz bem, mas no fim, decidi não
devolvê-la e guardá-la na mala do táxi.
Chegou a hora do almoço.
Tinha ficado
de me encontrar com o meu chefe num restaurante do centro, mas recordei-me da
lancheira e telefonei-lhe a desmarcar o encontro.
Como desculpe, disse-lhe que
estava a forjar uma nova solução para o caso que tínhamos em mãos.
Assim que
acabei de estacionar o táxi, procurei um banco à sombra, com a lancheira
debaixo do braço.
Sentei-me à Buda e
dispus-me a comer.
Um dos tupperwares continha uma colossal dose de arroz com
chouriço e cogumelos, salsichas grelhadas, couve branca em juliana e rodelas de
pepino e no outro, uma bruta dose de salada de frutas com molho.
Da primeira
tupperware chamou-me a atenção uma nota escrita, (com toda a certeza pela sua mãe),
colada no dorso da caixa.
A nota dizia:
“Não te esqueças de comer tudo. Amo-te
meu amor”.
Tudo rodeado de corações vermelhos.
Imaginei a cara vermelha de
vergonha do pobre rapaz ao abrir a tupperware diante dos colegas.
Sem dúvidas
que aquela mãe era uma fábrica de traumas.
Comecei a comer o arroz acompanhado
do sumo de pêssego.
Os transeuntes que se cruzavam no parque, olhavam-me surpreendidos,
nos meus 65 anos, 1,70 de estatura e com a marmita entre as pernas, chupando,
volta e meia, a palhinha da bebida.
A mim tanto se me dava.
Estava em grande.
Então sucedeu algo estranho.
A meio do prato já me sentia saciado, mas a nota
da ‘mamã’, “Não te esqueças de comer tudo”, obrigava-me a comer tudo com medo
de defraudá-la.
Havia amor naquele prato, com as rodelas de pepino e as
salsichas apresentadas com elegância.
Um amor que conseguiu ainda encher-me
mais que a salada de frutas.
Senti-me tão feliz que telefonei à minha mãe.
Estava desligado ou não tinha cobertura...
.



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