O VIDEIRINHO

quinta-feira, setembro 13, 2012

AMOR DE MÃE

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Com o afã do primeiro dia de colégio, ou talvez por falta de habituação, a passageira deixou esquecido o tupperware do seu filho, no assento traseiro do meu táxi. 

Na realidade eram dois tupperwares e uma embalagem pequena de sumo, tudo metido numa pequena mala térmica, a típica marmita ou lancheira. 

A fulana e o seu filho (de uns oito anos, gorducho e com cara de queijo da serra) saíram à porta de um colégio imenso e quando reparei no seu esquecimento, pensei em dar a volta e entrega-la na secretaria. 

Mas imediatamente interiorizei algo: um rapaz de oito anos com uma mochila cor-de-rosa da Barbie, sem qualquer dúvida que ia convertê-lo no bobo da corte de todo o colégio. 

E aquela mãe, enfim, estava a criar um monstro. 

Não sei se fiz bem, mas no fim, decidi não devolvê-la e guardá-la na mala do táxi. 

Chegou a hora do almoço. 



Tinha ficado de me encontrar com o meu chefe num restaurante do centro, mas recordei-me da lancheira e telefonei-lhe a desmarcar o encontro. 

Como desculpe, disse-lhe que estava a forjar uma nova solução para o caso que tínhamos em mãos. 

Assim que acabei de estacionar o táxi, procurei um banco à sombra, com a lancheira debaixo do braço. 

Sentei-me à Buda e dispus-me a comer. 

Um dos tupperwares continha uma colossal dose de arroz com chouriço e cogumelos, salsichas grelhadas, couve branca em juliana e rodelas de pepino e no outro, uma bruta dose de salada de frutas com molho. 

Da primeira tupperware chamou-me a atenção uma nota escrita, (com toda a certeza pela sua mãe), colada no dorso da caixa. 

A nota dizia: 
“Não te esqueças de comer tudo. Amo-te meu amor”.

 Tudo rodeado de corações vermelhos. 

 
 
Imaginei a cara vermelha de vergonha do pobre rapaz ao abrir a tupperware diante dos colegas. 

Sem dúvidas que aquela mãe era uma fábrica de traumas. 

Comecei a comer o arroz acompanhado do sumo de pêssego. 

Os transeuntes que se cruzavam no parque, olhavam-me surpreendidos, nos meus 65 anos, 1,70 de estatura e com a marmita entre as pernas, chupando, volta e meia, a palhinha da bebida. 

A mim tanto se me dava. 

Estava em grande. 

Então sucedeu algo estranho. 

A meio do prato já me sentia saciado, mas a nota da ‘mamã’, “Não te esqueças de comer tudo”, obrigava-me a comer tudo com medo de defraudá-la. 

Havia amor naquele prato, com as rodelas de pepino e as salsichas apresentadas com elegância. 

Um amor que conseguiu ainda encher-me mais que a salada de frutas. 

Senti-me tão feliz que telefonei à minha mãe. 

Estava desligado ou não tinha cobertura... 
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