.
Somar quilómetros nem sempre significa avançar.
Podem ser voltas ao redor de um mesmo nada ou passos de cego ou um constante ir e vir de qualquer lugar a nenhuma parte.
Por isso, cada vez que tenho de trocar os pneus do meu táxi por outros novos, interrogo-me se essas fibras de borracha queimada e abandonada no asfalto também queimaram o meu tempo sem deixar cinzas ou melhor, criaram outro homem mais velho e mais sábio.
Mas sei, como tu também sabes, que a resposta não está nos pneus, mas sim na carroçaria do táxi.
Quantas batidas recebidas ou que eu provoquei neste tempo?
Quantos arranhões?
Quantos faróis partidos?
Tudo isto recorda-me “Crash”, o impactante filme de David Cronenberg, quando depois de um acidente entre dois carros, uma voz off diz:
”É a sensação de contacto.
Em qualquer cidade que caminhes, compreendes?
Passas rentinho da gente e esta tropeça contigo.
Em Los Angelos ninguém te toca.
Estamos sempre atrás deste metal e vidro e ansiamos tanto esse contacto que chocamos contra outros só para poder sentir algo”.
Deste modo, cada vez que a companhia de seguros do meu táxi me aumenta o prémio do seguro (por exceder o limite de acidentes), sinto-me mais sábio.
Mais pobre, mas mais sábio.
Mais imbecil, mas mais sábio.
01MAI2011
.


Sem comentários:
Enviar um comentário