O VIDEIRINHO

quarta-feira, setembro 12, 2012

CROMOS

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A tua couraça engancha-se ao fechar a porta. 

Sai-te do pêlo. 

Já estás comigo: desnuda das costelas para dentro. 

Olho-te através do espelho e penso em cromossomas (tu e eu somos cromossomas; somas cromáticas, cromos somáticos). 

Tu és X. 

Eu sou Y. 

O meu táxi, célula viva em sangue de asfalto. 

À Rua do Lidador, indicas-me. 

Ou suplicas. 

E com isso dizes tudo. 

Já sei o que é ‘lidar’ com o trânsito em hora de ponta na Circunvalação. 

Não é fácil sucumbir ao encanto do sangue que flui através de outras veias que não são as tuas veias. 

Somos todos frágeis em distâncias curtas, todos nós precisamos de ser alguém na mente de alguém, lidar com o espaço e o tempo dos outros, sentir-mo-nos agasalhados em tempos de baixios. 


Não suportamos o esquecimento absoluto, crer que ninguém pensa na tua existência, que ninguém pensa em ti quando tu pensas nos que pensam. 

Somente faria falta um só gesto, deixares-te pisar por alguém ante a simples necessidade de escutar um perdão. 

Chamar quem quer que seja, só para sentir uma voz em exclusividade. 

Ou apanhar o meu táxi e que eu sucumba ao teu destino ainda que seja curto e não ter pressa e poder ir caminhando. 

Nem imaginas o só que por vezes cremos. 

Nem imaginas o que somos capazes de fazer para continuarmos a acreditar, existentes, ante os olhos de quem quer que seja. 

Nem imaginas o pouco que nos queremos nas grandes cidades. 

Nem imaginas o vazio que estão as grandes cidades. 
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