O VIDEIRINHO

quinta-feira, setembro 27, 2012

DANÇAS DUM LOBO

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Apenas me fixei nela quando entrou no meu táxi. 

Estava imerso noutras coisas, inventando amendoins descascados para os macaquinhos do meu sotão. 

Acabei de ouvir o que me disse: 
“Boas tardes. Para a estação de Campanhã, por favor”.

Por inércia accionei o taxímetro e iniciei a marcha. 

Os macaquinhos continuavam a macaquear-me o sótão, assim, decidi matá-los a bombardas deitando a mão ao meu próprio kit de sobrevivência: uma bolsa com diversos CD de música, {CD e não CDs – as siglas e acrónimos não possuem plural}. 

Aproveitando o semáforo saquei um CD ao acaso e introduzi-o no sexo, digo na racha, do equipamento. 

Imediatamente começaram a soar, num volume de som que eu não esperava, os primeiros acordes de “Are you gonna be me girl”. 

Nisto, a minha passageira começou a percutir com o pé, o chão do táxi, seguindo o ritmo da música. 

- Gosto muito deste tema. 
Pode aumentar um pouco o som?, disse-me. 

- Mais? 

- Sim, por favor. 

 

Aumentei o volume a um nível obsceno e então a jovem começou a mover a cabeça e os ombros. 

Contagiado pela sua necessidade de acompanhar o ritmo, comecei também eu a percutir com as mãos sobre o volante. 

E depois a mover o pescoço e de seguida o tronco. 

E a cantar com ela. 

- Uau! 
Tenho ganas de sair para a rua a dançar, gritou-me. 

Num arranque de “INSÉTEísmo”, travei o táxi em plena rua de Pinto Bessa e abri a porta. 

- Saia comigo. 
Dancemos, disse-lhe. 

A jovem sorriu-me e sem pensar sequer, abriu a porta e saiu para a rua. 

Ambos começámos a dançar á volta do táxi até ficarmos diante da frente do mesmo, aproveitando a luz dos faróis como os “rockstars” no clamor da noite. 

Olhava-me e eu a ela, ambos sorrindo, movendo-nos mas agora sem tirarmos o olhos um do outro, como íris unidas com grilhões. 


Tão-pouco nos importavam os curiosos que pouco a pouco se iam acercando. 

Não existiam. 

Foi lindo. 

Profundamente belo. 

Então eu soube-o. 

Acabou a canção e imediatamente começou a soar “Please, please, let me get what I want”, dos Smiths, um tema muito mais lento e rigoroso, que ela, para meu espanto, também conhecia. 

Então ela começou a cantar acercando-se de mim e eu dela. 

E quis abraçá-la, quiçá beijá-la, mas nisto apareceu um carro da polícia, que como sempre sucede, interrompeu a magia. 

Nota: 
Quinze desculpas depois reiniciámos a marcha até chegar a Campanhã. 

Ela tinha que partir, senão perdia o Alfa Pendular. 

Tão-pouco me deu o seu número de telefone. 

Nem soube o seu nome. 

Para efeitos práticos o seu Alfa Pendular levou os meus macaquinhos do sótão, sim. 

Mas a borboletas são piores.
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