Procurando o impossível, agarrar o gato por três patas,
este sacou das garras e arranhou-me.
Foram três arranhadelas na palma da minha mão.
Três valentes arranhões paralelos a três das minhas
quiromânticas linhas: o coração, a vida e o destino.
Sem dar muita importância, mesmo à dor, saquei o meu
táxi e fui…
Duas ou dez ruas depois, fez-me sinal uma mulher a quem
faltava um braço, o direito.
Entrou e indicou-me o caminho, curve na próxima à
esquerda e na seguinte à esquerda e na seguinte à esquerda e na seguinte à
esquerda.
Depois de dar a volta à “laranja”, pediu-me para a
deixar no mesmo sítio onde a tinha recolhido.
– Quanto lhe devo, perguntou-me.
– Nada, disse-lhe.
E foi-se, coxeando.
Continuei a marcha e outras quinze ruas depois,
detive-me ante um homem que não queria nenhum táxi, mas acabei por
convencê-lo.
– Estou a dar o meu passeio diário, disse-me.
– Se o levar de táxi, acabará antes.
– Tenho o colesterol alto e o médico recomendou-me
passear.
– Se entrar no meu táxi, convidá-lo-ei para um
Danacol.
O homem anuiu.
Entrou no táxi e disse-me:
- Já agora, leve-me a jogar bowling.
Acabámos num local com bowling.
Na quinta partida, o homem vai lançar, escorregou-lhe a
bola e machucou-se num pé.
Não conseguia andar.
Levei-o ao hospital.
Como levei uma vida descontando para a ADSE,
praticamente sem lhe dar uso, decidi amortizá-la e sofrer uma arritmia cardíaca
ali mesmo, na sala de espera.
As análises que me fizeram determinaram uma obstrução
num “condensador” do fluxo do coração.
Urgia um transplante.
Como não apareceram dadores humanos, optaram por me
implantar o coração de um gato.
Vi o gato na sala de operações, prostrado numa maca
contigua à minha.
Tinha uma roda de táxi tatuada no lombo e tinha três
patas.
(Agora estou aconchegado à tua barriga, os dois
vendo um filme de Scorsese.
Acaricias-me a queixada com os teus dedos.
Mio de prazer.
Sinto-me excêntrico e feliz como uma pedra, metade sol,
metade lua).
.



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