.
Toda a ilha deserta carece de um náufrago.
Quando sufocaram o motim, tiveram misericórdia do pobre Vasco e, não me dependuraram, baloiçando para os abutres, como aos outros.
Com umas bolachas secas e um rifle, deixaram-me varado na praia e escapuliram-se.
Vi o barco afastar-se, enquanto atirava pedras ao mar e também impropérios, até que se me acabaram as forças.
Como um espantalho cravado na areia fui superado pela evidência da minha solidão e chorei três dias e três noites.
À terceira noite ressuscitei.
Porque sou Deus.
Desde que cheguei aqui, a esta porção de terra desabitada no meio do oceano, sofri o paraíso.
De nada me serviu ter lido Robinson Crusoe para adaptar-me melhor a estes coqueiros, a estas rochas, a este pescado cru e a este céu inacessível.
Não me fez falta alterar a estrutura da minha cabana, o curtido das peles ou o destilar licor de coco.
Só ser Deus todo poderoso.
É costume em certas entrevistas, perguntar à personagem que livro, que música ou quem levaria para uma ilha deserta.
Eu trouxe-os a todos e a tudo, criei o universo, criei-te a ti que agora me lês, tudo o que te rodeia e me acompanha.
Criei as tuas recordações infantis e a tua comida favorita, o teu primeiro beijo e essa tarde melancólica da primeira “queca”.
Escrevo na minha memória a grande enciclopédia do mundo.
Escuto em mim as vozes da criança nervosa, os versos do poeta, o pai abandonado, os uivos de palhaço insolente.
Desenho o retrato do escravo infantil e do assaltante mascarado, as silhuetas do erro crasso.
Conto as tardes de chuva, conto os carneiros da insónia, as riscas do papel pintado, as pedras que contas ao sair do bar desse inverno que eu criei.
Não há nada que não espere para ser dito por mim nesta solidão.
Agora conheceis a verdade: o vosso mundo nasceu na imaginação de um náufrago.
Deus vive numa ilha.
Mas aqui, sobre a crista e rodeado de espuma, não há lugar para tantos mundos.
É impossível o passeio do criador sem tropeçar com vidas ensimesmadas e com momentos malogrados, com biografias, idiomas e certezas futuristas.
Há novas cores que se queixam do azul predominante.
Os granjeiros em greve cortejam com mulheres distintas, com os seus cães do amor, com todo o tipo de formalidades, com infinitos possíveis.
Esta ilha já não está deserta.
Não há espaço para mais vidas na minha.
Chegou a hora de que construais os vossos próprios destinos para sempre; o 'papá' não voltará a decidir tudo.
Guardava esta bala para escrever com ela o último capítulo da criação, a conclusão do universo e as memórias.
O ‘big’ Bang Bang... o FIM.
Adeus, Vasco!
.




Sem comentários:
Enviar um comentário