O VIDEIRINHO

quinta-feira, janeiro 15, 2015

ILHA DESERTA

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Está bem que estou fod***, quero dizer, lixado, cheio de traumas e tudo o mais que tu queiras. 

Está bem que não mereci passar nos psicotécnicos do táxi, que menti relativamente ás pastilhas dos travões e que me nego a usar óculos porque quero ver tudo, tal como o vêem os meus olhos (se a vida está nebulosa por algo será). 

Sei que não valho nada para este exacto mundo, que todos são abutres e eu um rouxinol que coxeia, que me aborrecem as tuas censuras e me entediam as tuas segundas-feiras e me chateia o cigarrito “de depois”. 

Mas eu escrevo. 

Tudo o mais importa-me um “corno”, já vês. 

 

Ontem perguntaste-me quais as três coisas que me levariam a uma ilha deserta. 

Não o duvidei nem um segundo: o meu táxi, papel para o resto da vida e um contentor de esferográficas Bic, pretas. 

Não compreendias para o que poderia eu querer levar o táxi para uma ilha deserta. 

A resposta é óbvia, disse-te. 

Para inventar passageiros e escrever sobre eles. 

Aquela era uma pergunta armadilha, não haja dúvidas. 

Tinhas a esperança de que eu te incluísse na minha lista e começássemos do zero, num habitat virgem: só tu e eu. 

 

Mas contigo também viria o vírus do passado, os estigmas de todos estes traumas. 

Se te oferecem começar do zero, o melhor é não levar deponentes. 

E recordo a citação de Benjamin Prado, “O que importa é a ilha, não o tesouro”(*). 

Explorar o novo, explorar-me, conhecer-me divorciado do vício do homem. 

Só numa ilha, sem gente ao redor, não teria traumas. 

Nem ansiedade. 

Nem mau clima. 

A gente é o reflexo ‘chunga’ da alma. 

Tão-pouco haveria leitores. 

Nem leitoras. 

Pergunta ‘de mim’ para ti: 
Serias capaz de suportar-te numa ilha deserta? 

(*) A MI HERMANO JOAQUÍN PARA QUE NO SE OLVIDE

Una noche, Joaquín tuvo el acierto
de esquivar el pu
ñal de la gran dama.
Hoy siente que es un pájaro sin rama,
un Nilo que ha acabado en el Mar Muerto.

Se siente un buzo azul atado a un puerto
y necesita cosas que no ama,
vértigos sin abismos, luz sin llama,
miedo sin lobos, huellas sin desierto.

Yo he venido a decir que te equivocas,
que aún es brillante todo lo que tocas,
que aún puedes transformar la arena en oro.

Tu sabes que la vida, igual que el arte,
si no está en ti, no está en ninguna parte,
lo que importa es la isla, no el tesoro.

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