O VIDEIRINHO

terça-feira, janeiro 13, 2015

CORPOS FALANTES

 .

O corpo nunca mente. 

A linguagem corporal, por exemplo. 

Do meu psiquiatra aprendi a forçar os meus gestos para evitar que falassem por mim. 

Nas consultas dos psiquiatras as mesas são de vidro para poder ver através delas: se o paciente cruza os pés, ou cruza as pernas, ou cerra os punhos cada vez que tratam certos temas sensíveis para ti, ou cada vez que mentes. 

Todos temos um gesto ou um tic que surge inconscientemente nestes casos. 

Uns mordem o lábio inferior ou a comissura interna, outros juntam os joelhos, tocam o lóbulo de uma orelha ou alisam o cabelo sem darem conta.

No meu caso, cada vez que falava de certas passagens da minha infância, tendia a cravar as unhas dos meus dedos indicadores nas palmas das mãos. 


Era assim que o fazia, até que apanhei o meu psiquiatra olhando de soslaio através da mesa de vidro e escrevendo, depois, notas na sua agenda; (já viste?), como se aquele gesto fosse um sintoma, uma relação não verbal do meu corpo a um passado não resolvido. 

Desde então, vou à consulta com luvas. 

O psiquiatra, sem mais nem menos, aumentou-me a medicação. 

Não percebo nada. 

E agora, vejam bem. 

Graças ao meu psiquiatra aprendi as múltiplas formas da linguagem gestual; aprendi a evitar que o meu próprio corpo me delatasse (também conduzo o meu táxi com luvas), mas também aprendi essa linguagem nos utentes do meu táxi. 


Noutro dia, uma usuária curvilínea e deslumbrante disse-me que gostava dos meus olhos.
Disse-o enquanto passava a mão pelo cabelo: mentia!

– Sinto muito, mas sou casado, menti eu, também, sem que o meu corpo me denunciasse (tinha as luvas calçadas). 

– Isso não importa. 
Convido-o a um copo em minha casa. 

– Não. 
A sério. 
Não me apetece. 

– Mentes! 

– Como sabes? Perguntei. 

– Está-me a dizer essa protuberância nas tuas calças. 

Terminei na sua cama. 

Sobre a mesinha de cabeceira pude ver um frasco com os mesmos comprimidos que me receitou o psiquiatra.

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