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O melhor para não deixar o mais ínfimo rasto do passado está no poder de inventá-lo sem medo de ser descoberto.
Sem pegadas não há pistas; não há cadáver, querido Watson.
Queimei todas as minhas fotos, mudei de amigos uma e outra vez e de cidade no meu perfil do Facebook (agora sou taxista em Estocolmo, casado com uma loira cujas fotos encontrei no Google e “Photoshopei” a meu lado numa atitude carinhosa).
É muito gratificante inventar a nossa própria autobiografia.
E terapêutico também.
Todos esses traumas que a infância nos deixou podem ser moldados consoante o nosso desejo, até ao ponto de os fazer desaparecer, e com eles as sequelas que ainda rabeiam.
Não há nada mais do que acreditar na nossa própria ficção para esquecer o que aconteceu na realidade.
De criança nunca fui tímido, mas sim o líder da sala de aula.
Tão-pouco houve o complexo de Édipo: nasci órfão mas depois fui adoptado por um casal gay, dois pais e com eles vivi feliz até que fui contratado pelo “Circo do Sol” (pelas minhas habilidades contorcionistas) e comecei a viajar por todo o mundo.
Em Tóquio conheci a Leila, tivemos dois filhos, mas tive que matá-los (a ela também) num acidente fictício porque não suportava tanta responsabilidade.
Entretanto escrevi uns quantos livros, só para ganhar dinheiro, sob o pseudónimo de Agustina Bessa-Luís; inclusivamente contratei uma feminista de aspecto esquizóide para lhe atribuir a ela a autoria dos meus livros e não levantar suspeitas.
E agora, como já vos disse, vivo em Estocolmo e conduzo um táxi.
A loira que encontrei no Google não é mais que um disfarce ou dissimulação.
Na realidade vivo numa sugestiva casa de paredes verdes com o meu noivo Alexander.
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