O VIDEIRINHO

sexta-feira, abril 24, 2015

PORTA do CÉU OU do INFERNO?

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A jovem doutora Paula lamentava-se da sua descoberta. 

Maldizia a cada instante a hora em que lhe tinha ocorrido realizar a investigação. 

É certo que tudo surgiu quando a destinaram ao Departamento de Medicina Legal e Ciências Forenses, durante a sua formação como médica. 

A doutora sussurrava com um estremecimento de desgosto: 

- Maldita a hora em que fiz o estudo do ADN. 

Entre alguns residentes e médicos adjuntos do Instituto Nacional de Medicina Legal, comentava-se com alguma jocosidade, as surpresas que se obtêm dos testes de paternidade ordenados pelos juízes. 

As estatísticas refectem que ± 25% dos testes de paternidade que se fazem, (cerca de 4 por dia), resultam negativos, o mesmo é dizer que 1 em cada 4 portuguesitos, o progenitor pode muito bem ser o melhor amigo, o picheleiro (canalizador-encanador), o carteiro ou até o homem da botija de gás. 

Tudo começou logo ao aterrar nas âmago do departamento. 


 

Reuniu a família e disse-lhes que as primeiras práticas fazem-se com a família (são as cobaias!), tal como lhe tinha dito o seu tutor. 

Paula é a mais velha de quatro irmãos e sem encomendar-se a Deus nem ao diabo, obteve amostras de sangue, do pai, mãe e dos três irmãos. 

A surpresa apareceu com os resultados de dois dos irmãos mais novos. 

Não eram filhos do seu pai! 

Como é que a mãe lhe podia ter feito tamanha ignomínia ao seu pai que tanto idolatrava? 

Para Paula o seu pai era um deus, venerava-o até ao exagero. 

E não era para menos. 

Era um grande pai, sempre preocupado com os quatro filhos para que nada lhes faltasse; até se podia dizer que era mais carinhoso com os filhos mais novos, com os que não se uniam os laços de sangue. 

– Meu Deus! 
Lamentava-se amargamente Paula. 
Deverei dizer aos meus irmãos que o meu pai não é o pai deles? 
Terão o direito de conhecer o seu verdadeiro pai? 

 
Mas o que mais a atormentava era ver a sua mãe. 

Sempre tão dependente do seu pai, dos filhos, da casa, da roupa… mas a prova de ADN desmascarou-a. 

“É uma puta”, dizia a doutora em momentos de obsessão e ofuscamento mental, quando a raiva a cegava. 

No entanto, o seu pai e seus irmãos adoravam-na, inclusive até a própria doutora antes de conhecer a infame notícia. 

Não sabia a quem se socorrer, se a um advogado, a um psiquiatra…? 

Tinha perfeita consciência de que nas suas mãos estava a porta do inferno ou a do paraíso. 

Que culpa tinham os seus irmãos mais novos? 

Como reagiria o seu pai quando conhecesse a crua realidade? 

– Santos inocentes, santos inocentes, repetia a jovem doutora ante uma garrafa de vodka, quase vazia, no seu apartamento, com a mente posta no seu pai e nos seus dois irmãos.

15NOV2011
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1 comentário:

Táxi Pluvioso disse...

Se está no curral é do boi, é como na Justiça, é preciso ter fé.