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A jovem doutora Paula lamentava-se da sua descoberta.
Maldizia a cada instante a hora em que lhe tinha ocorrido realizar a investigação.
É certo que tudo surgiu quando a destinaram ao Departamento de Medicina Legal e Ciências Forenses, durante a sua formação como médica.
A doutora sussurrava com um estremecimento de desgosto:
- Maldita a hora em que fiz o estudo do ADN.
Entre alguns residentes e médicos adjuntos do Instituto Nacional de Medicina Legal, comentava-se com alguma jocosidade, as surpresas que se obtêm dos testes de paternidade ordenados pelos juízes.
As estatísticas refectem que ± 25% dos testes de paternidade que se fazem, (cerca de 4 por dia), resultam negativos, o mesmo é dizer que 1 em cada 4 portuguesitos, o progenitor pode muito bem ser o melhor amigo, o picheleiro (canalizador-encanador), o carteiro ou até o homem da botija de gás.
Tudo começou logo ao aterrar nas âmago do departamento.
Reuniu a família e disse-lhes que as primeiras práticas fazem-se com a família (são as cobaias!), tal como lhe tinha dito o seu tutor.
Paula é a mais velha de quatro irmãos e sem encomendar-se a Deus nem ao diabo, obteve amostras de sangue, do pai, mãe e dos três irmãos.
A surpresa apareceu com os resultados de dois dos irmãos mais novos.
Não eram filhos do seu pai!
Como é que a mãe lhe podia ter feito tamanha ignomínia ao seu pai que tanto idolatrava?
Para Paula o seu pai era um deus, venerava-o até ao exagero.
E não era para menos.
Era um grande pai, sempre preocupado com os quatro filhos para que nada lhes faltasse; até se podia dizer que era mais carinhoso com os filhos mais novos, com os que não se uniam os laços de sangue.
– Meu Deus!
Lamentava-se amargamente Paula.
Deverei dizer aos meus irmãos que o meu pai não é o pai deles?
Terão o direito de conhecer o seu verdadeiro pai?
Mas o que mais a atormentava era ver a sua mãe.
Sempre tão dependente do seu pai, dos filhos, da casa, da roupa… mas a prova de ADN desmascarou-a.
“É uma puta”, dizia a doutora em momentos de obsessão e ofuscamento mental, quando a raiva a cegava.
No entanto, o seu pai e seus irmãos adoravam-na, inclusive até a própria doutora antes de conhecer a infame notícia.
Não sabia a quem se socorrer, se a um advogado, a um psiquiatra…?
Tinha perfeita consciência de que nas suas mãos estava a porta do inferno ou a do paraíso.
Que culpa tinham os seus irmãos mais novos?
Como reagiria o seu pai quando conhecesse a crua realidade?
– Santos inocentes, santos inocentes, repetia a jovem doutora ante uma garrafa de vodka, quase vazia, no seu apartamento, com a mente posta no seu pai e nos seus dois irmãos.
15NOV2011
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1 comentário:
Se está no curral é do boi, é como na Justiça, é preciso ter fé.
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