O VIDEIRINHO

quinta-feira, abril 23, 2015

PESO NA CONSCIÊNCIA

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Ontem à noite sofri um acidente. 

Ou melhor, atropelei algo, não sei exactamente o quê ou quem, talvez fosse um cão, ou um javali, ou uma criança obesa. 

Havia muito nevoeiro, circulava com três passageiros a não mais de 110 km/h, pela faixa esquerda da A28, quando de repente, algo se cruzou numa fracção de segundo, como um clarão. 

Não tive tempo para distinguir com precisão e muito menos esquivá-lo. 

O caso é que fosse esse algo com corpo e pernas, ou patas e talvez cabelo (um ser vivo, sem dúvida) atingiu o pára-choques do meu táxi, soou um forte impacto, PUM!!! e nesse instante tive que controlar o táxi, agarrar bem o volante para evitar chocar depois contra os separadores de betão. 

Quando por fim consegui manter a situação debaixo de controlo, reduzir a velocidade e chegar-me para a direita (vinham carros) terão decorrido entre 700 e mil metros desde o impacto. 

Não podia fazer marcha atrás (era demasiada a distância, rsrsrs) nem consegui distinguir nenhum corpo sobre o asfalto. 
 
 

Os passageiros, por sua vez, empalideceram com o susto. 

Eu nem tanto: já nasci pálido. 

Arranquei, deixei os passageiros no seu destino (era muito perto dali) e imediatamente regressei veloz ao local dos factos. 

A minha surpresa chegou ao não encontrar qualquer rasto do sucedido. 

A violência do impacto tinha sido, sem dúvida nenhuma, necessariamente mortal, mas não havia corpo. 

Nem na berma, nem na autoestrada. 

Talvez outro carro lhe tenha embatido também, arrastando-o para longe, ou alguém se deteve para o recolher e assistir. 

Oxalá. 

A questão é que esta noite dormi como uma pedra. 

E agora, ao pensar nos acontecimentos, entendo o porquê: não consegui colocar uma cara à vítima, nem vi o seu corpo inerte no chão, nem pude distinguir, se foi um cão, a sua raça, ou se levava uma coleira com o nome gravado numa chapa (talvez “Frosky”, ou “Boby”, os diminutivos doem mais, são mais próximos). 


Se tivesse tido conhecimento de tal dado, sem dúvida, ter-me-ia sentido mal, ou pelo menos mais incomodado pese o facto de não ter podido evitar o impacto. 

Um atropelamento sempre gera um verdadeiro peso de consciência em grau exponencial se se trata de um animal pequeno, ou maior, ou doméstico, ou pior: uma pessoa. 

Não é o mesmo atropelar sem saber o quê, que uma rata, que um javali, que um veado, que um gato ou um cão vadios, que um gato ou um cão domésticos, que um inimigo, que um homem anónimo, que um conhecido. 

Verdadeiramente é um pouco absurdo que assim suceda (todos eles são seres vivos, em qualquer caso), mas não podemos evitar ter em conta o peso relativo da sua alma.

12FEV2012
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