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Nós os homens, ao contrário de “vossemecêzes” mulheres,
sentimos a passagem das horas no nosso próprio rosto.
A barba cresce e de certo
modo pica-nos o decurso do tempo, o qual nos torna mais conscientes do instante
presente.
Alguns homens barbeiam-se todas as manhãs numa tentativa de cortar o
seu tempo, de contê-lo.
E ao lavar a lâmina debaixo da torneira, esses resquícios
de tempo que a água arrasta acabam por entupir o esgoto.
De facto, sempre tenho
pensado que os picheleiros (canalizadores) são filósofos encobertos (ainda que
eles não o saibam).
Outros ostentamos barba de dois dias e cortamos a barba a
cada dois dias para que sempre pareça uma barba de dois dias e ao vermo-nos
ante o espelho pensemos isso mesmo, que a vida são dois dias.
Depois estão os
que exibem patilhas ou uma ‘perita’, ou bigote, que brincam a ajustar o tempo.
Ou os sábios com as suas longas barbas.
Estes vivem acima do tempo.
Arrastam os
restos das suas horas como se o cérebro segregasse experiência através da
peneira da pele.
Ou os de barba ou bigode postiço, que são ladrões de tempo.
Todos, em suma, gerimos o nosso tempo de uma maneira ou de outra.
E
nota-se-nos.
Vós mulheres, no entanto (e por motivos óbvios), sois intemporais.
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