O VIDEIRINHO

quinta-feira, maio 30, 2013

ILUSÓRIO AMOR

 .

 

Penso muito nisto: as mais belas canções da história da música moderna têm como base quatro ou inclusivamente três simples acordes repetidos em espiral. 

Convido-vos a que desnudem tudo dos Beatles, desnudem qualquer tema de Bob Dylan e verão que a sua estrutura é só isso: quatro acordes básicos combinados de uma maneira ou de outra.  

“Let it be”: quatro acordes; “Knockin on heaven’s door”: quatro acordes; “Enjoy the silence”: quatro acordes.  

Isto não vai com música, amor. 

Só é um exemplo que demonstra o muito que complicamos a beleza que esconde o nosso. 

Oxalá que se desnude e me permita desfrutar do seu corpo básico, sem o arpejo da sua saia, sem o refrão do seu sutiã. 

Sem a base maquilhado do seu rosto, sem os coros das suas dúvidas, sem esses golpes de bombo e pratos, que são os seus batimentos e as minhas palmas. 




Deixe-me só tocar os seus quatro acordes e eu “colocarei” a voz, assim tão simples. 

Penso nisto enquanto conduzo o táxi ocupado por si. 

Precisamente começou a soar pela rádio outro desses temas ‘fazedor’ de vontades: New Year’s Day dos U2. 

Este é mais fácil: só tem três acordes. 

Na verdade inventei o nosso, não há nada nosso ou pelo menos nunca houve. 

A nossa história começou há apenas cinco minutos. 

Ela levantou-me a mão, eu parei o meu táxi, entrou rapidamente e indicou-me o destino. 

Mas agora, ainda que não se dê conta, o acorde La menor acaricia-lhe o pescoço e infiltra-se discreto pelo seu decote. 

E depois o Do menor enquista-se nos seus lábios e actua, talvez, como anestesia, porque não os move. 

 

E logo entra em cena o Mi menor e aferra-se ás suas pálpebras e puxa-as e não pode evitar o seu peso e pouco a pouco vão-se fechando. 

E assim se mantém, imóvel e com os olhos fechados, até que entra o estribilho e nisto inclina a cabeça e recosta-se como em clave de Sol. 

Com a cabeça apoiada no vidro até ao final do trajecto. 

Chegamos ao seu destino. 

Definitivamente segue inebriada pela simplicidade de uma música que nos unirá para sempre. 

Volto-me. 

Olho-a. 

Está linda. 

Passam uns momentos mas não reage. 

Preocupo-me. 

Decido sacudir-lhe a perna. 

De súbito tem um estremecimento e abre os olhos: 

- Oops! Adormeci! 

Paga-me a “corrida” e parte. 

Nota: Pensei que era a mulher da minha vida, mas não. 
Era só surda.
.

1 comentário:

Tétisq disse...

gosta de dar música o nosso taxista!