O VIDEIRINHO

quarta-feira, maio 22, 2013

PINTURA VIDA

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A viagem Caracas-Paris de Jean Pierre, um francês de 44 anos, fazia escala no Porto (por uma escolha mais económica). 

Tinha três horas de espera e apetecia-lhe conhecer um pouco da cidade; assim decidiu apanhar um táxi no aeroporto e pedir ao taxista fazer de guia. 

Jean Pierre tinha os olhos mais vivos como eu jamais tinha visto. 

Sentou-se a meu lado e num perfeito inglês solicitou-me que improvisasse os destinos. 

Durante os primeiros quilómetros do trajecto que eu delineara, contou-me o que o tinha trazido até aqui, uma história que me deixou surpreso. 

Jean Pierre foi mecânico de aviões militares em França até que, à idade de 42 anos, diagnosticaram-lhe um cancro terminal. 

O médico deu-lhe seis meses vida. 

Ao conhecer a notícia, vendeu todas as propriedades e outros bens e, sem dizer nada à sua ex-mulher, nem aos seus filhos, dispôs-se a viajar por todo o mundo para aproveitar até ao último suspiro e fazer tudo aquilo que tinha pendente há uns anos. 


Nova Iorque foi o seu primeiro destino. 

Instalou-se no Brooklyn e ali deu-lhe para colocar em prática um amor frustrado: a pintura. 

Começou a pintar retratos de pessoas. 

Em pouco tempo e contra todos os prognósticos, os seus retratos começaram a ter sucesso e a notícia espalhou-se. 

Pediam-lhe cada vez mais retratos e ofereciam-lhe cada vez mais dinheiro por eles. 

Segundo me disse, agora já pintava bem, tinha sucesso, porque nos seus traços notava-se a luminosidade de quem perdeu o medo à vida. 

Em Brooklyn enamorou-se de uma negociante de arte. 

Ela não sabia que lhe restavam cerca de dois meses de vida, assim optou por fugir da dor e viajou para Sul. 

Instalou-se num dos bairros mais perigosos de Caracas (Venezuela). 

Sem dúvida que se sentiu livre. 

Nada melhor do que estar perto da morte para viver sem medo a nada”, disse-me. 


Mas o milagre chegou depois. 

Voltou a ir a um outro médico e este deu-lhe uma boa notícia: o cancro tinha regredido. 

Já não ia morrer. 

Já se passaram dois anos daquele pesadelo e Jean Pierre continua vivo, viajando e vivendo dos seus retratos. 

Esta mesma tarde regressa a Paris para resolver uns assuntos pendentes com a sua família e depois voltará a Brooklyn. 

A pintar e a reencontrar-se com aquele grande amor. 

 
Tirada DAQUI


NOTA: 
O tour e a conversa durou um pouco mais do que uma hora. 

Depois estacionei o táxi e levei-o a visitar a Quinta de Serralves. 

Ao despedir-me na zona das partidas do aeroporto de Pedras Rubras deu-me o seu telefone e eu o meu ("quero voltar com mais calma e pintar-lhe um retrato", disse-me). 

Demos um abraço e precisamente antes de ir, soltou uma dessas frase que gelam a alma:
 “O cancro salvou-me a vida”. 
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1 comentário:

Táxi Pluvioso disse...

E agora caem-lhe as mulheres em cima a pedir indemnizações.