Não há problemas grandes.
Não há problemas pequenos.
Isto
aprendi-o no meu táxi.
Entra um tipo, indica-me o destino e começa a contar-me
as muitas saudades que tem do seu gato “Xano”.
Escapuliu-se de casa e agora,
supõe, que andará por aí, esganado de fome e frio, ou talvez alguém o tenha
recolhido. Ou quem sabe, ande ás gatas.
De qualquer maneira, este bichano nunca terá para ninguém a
importância que lhe dó o meu passageiro.
Quem o encontrar poderá dar-lhe alguma
importância, mas nunca será a mesma.
Outra passageira disse-me que acabava de
entalar um dedo na porta do táxi.
Que lhe dói, mas a dor não lhe importa.
O
pior é que vinha da manicura e ao entalar o dedo caiu-lhe uma unha postiça.
Precisamente a unha do dedo anelar da mão direita, justamente agora que o seu
noivo está à espera dela num restaurante e ela sabe que ele tem a intenção de
lhe pedir a mão.
E ela sabe, também, que ele comprou um anel de noivado e
quando chegar a sobremesa, pegará no anel e ela colocá-lo-á no único dedo dos
dez sem unha postiça.
Atento pois à preocupação maior da minha passageira: uma
simples prótese.
Vários passageiros depois (o negócio está fluorescente), entra
um outro que me diz que o preocupam os despedimentos, o desemprego e a fome que
grassa no mundo.
Assim colocado, os seus problemas ultrapassam a sua própria
vontade.
Inclusivamente o seu próprio âmbito.
Não poderá fazer nada para evitar
a fome no mundo ou evitar o desemprego.
Eu, tão-pouco.
No entanto a ele afecta-o
mais que a mim e seguramente que a mim me afecta mais que a ti, e a ti que ao
outro.
Silhueta do abismo
E a intensidade do problema ir-se-á desvanecendo segundo o apego que cada um tenha ao seu próprio umbigo.
De facto, a culpa compartilhada dói
menos ou melhor dilui-se no tumulto.
Talvez seja por isso que tendemos a
comprar produtos que não precisamos em locais comerciais atestados de gente.
Para compartilhar a culpa.
E eu, pois, o que dizer-vos?
Que me deixou a minha
noiva e esquecê-la é agora o meu único problema.
E esquecer os seus olhos,
esquecer a sua voz, e alisar duma assentada a silhueta do seu corpo neste
abismo que é a minha cama.
E assim somos absurdos.
Um preocupado com o seu
gato.
Outra com a sua unha postiça, outro pela fome no mundo e eu por ela.
E
ela agora está a dormir, suponho.
.



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