O VIDEIRINHO

segunda-feira, maio 27, 2013

PROBLEMATISMO

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Não há problemas grandes. 

Não há problemas pequenos. 

Isto aprendi-o no meu táxi. 

Entra um tipo, indica-me o destino e começa a contar-me as muitas saudades que tem do seu gato “Xano”. 

Escapuliu-se de casa e agora, supõe, que andará por aí, esganado de fome e frio, ou talvez alguém o tenha recolhido. Ou quem sabe, ande ás gatas.

De qualquer maneira, este bichano nunca terá para ninguém a importância que lhe dó o meu passageiro. 

Quem o encontrar poderá dar-lhe alguma importância, mas nunca será a mesma. 

Outra passageira disse-me que acabava de entalar um dedo na porta do táxi. 

Que lhe dói, mas a dor não lhe importa. 

O pior é que vinha da manicura e ao entalar o dedo caiu-lhe uma unha postiça. 

Precisamente a unha do dedo anelar da mão direita, justamente agora que o seu noivo está à espera dela num restaurante e ela sabe que ele tem a intenção de lhe pedir a mão. 

 

E ela sabe, também, que ele comprou um anel de noivado e quando chegar a sobremesa, pegará no anel e ela colocá-lo-á no único dedo dos dez sem unha postiça. 

Atento pois à preocupação maior da minha passageira: uma simples prótese. 

Vários passageiros depois (o negócio está fluorescente), entra um outro que me diz que o preocupam os despedimentos, o desemprego e a fome que grassa no mundo. 

Assim colocado, os seus problemas ultrapassam a sua própria vontade. 

Inclusivamente o seu próprio âmbito. 

Não poderá fazer nada para evitar a fome no mundo ou evitar o desemprego. 

Eu, tão-pouco. 

No entanto a ele afecta-o mais que a mim e seguramente que a mim me afecta mais que a ti, e a ti que ao outro. 

 
 Silhueta do abismo

E a intensidade do problema ir-se-á desvanecendo segundo o apego que cada um tenha ao seu próprio umbigo. 

De facto, a culpa compartilhada dói menos ou melhor dilui-se no tumulto. 

Talvez seja por isso que tendemos a comprar produtos que não precisamos em locais comerciais atestados de gente. 

Para compartilhar a culpa. 

E eu, pois, o que dizer-vos? 

Que me deixou a minha noiva e esquecê-la é agora o meu único problema. 

E esquecer os seus olhos, esquecer a sua voz, e alisar duma assentada a silhueta do seu corpo neste abismo que é a minha cama. 

E assim somos absurdos. 

Um preocupado com o seu gato. 

Outra com a sua unha postiça, outro pela fome no mundo e eu por ela. 

E ela agora está a dormir, suponho. 
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