Parte da Alegoria do Triunfo de Vénus (1540-1545), de
Agnolo Bronzino
Não me dói nada.
Não me dói a cabeça, não me doem as gengivas, não me doem os olhos, nem as costas, nem as cutículas, nem as articulações dos joelhos, nem o estômago, nem tremo, nem tusso.
Não tenho ansiedade, nem frio,
nem sonho, nem fome, nem sede.
Hoje pus-me em dia com a correspondência
pendente, paguei aquela factura, levei o meu táxi a lavar e até passei a ferro
as calcinhas que te roubei.
Vi aquele último capítulo de “The Wire” e li, de uma
penada, o livro de Salman Rushidie, “Joseph Anton – Uma Memória”.
E ontem tive
sexo com uma amiga.
Tudo correu ás mil maravilhas (bebemos quase duas garrafas
de vinho ao jantar, rimos muito e empatámos em orgasmos) e foi-se embora no
momento preciso.
Ao deitar-me tudo à
minha volta estava muito calmo.
Límpido.
Reluzente.
The Morning After, Fernando Botero
Nem um só pêlo dela ou um
cabelo na almofada que pudesse colar-se nos meus sonhos.
Esta tarde
telefonaram-me para um “projecto” gastronómico e respondi, sim.
Telefona-me um
cliente do meu táxi.
Amanhã levá-lo-ei a Lisboa, esperarei um par de horas, almoçarei
por lá, darei um passeio e regressaremos justamente a tempo para o meu póquer
das sextas-feiras na tasca do Xico.
Disse-lhe que 200€… e pareceu-lhe bem.
Provei um novo Whisky que
um passageiro habitual me ofereceu.
Reservei um bilhete para as Maldivas.
Senti
a chuva a percutir na janela.
E Bowie a soar no iPad.
E revi todos os
ingredientes para o “projecto”.
Encontro-me num grande momento criativo.
Mas.
Por que estou tão triste?
.


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