O VIDEIRINHO

sexta-feira, maio 31, 2013

TRISTEZA

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Parte da Alegoria do Triunfo de Vénus (1540-1545), de Agnolo Bronzino 

Não me dói nada.

Não me dói a cabeça, não me doem as gengivas, não me doem os olhos, nem as costas, nem as cutículas, nem as articulações dos joelhos, nem o estômago, nem tremo, nem tusso.

Não tenho ansiedade, nem frio, nem sonho, nem fome, nem sede. 

Hoje pus-me em dia com a correspondência pendente, paguei aquela factura, levei o meu táxi a lavar e até passei a ferro as calcinhas que te roubei. 

Vi aquele último capítulo de “The Wire” e li, de uma penada, o livro de Salman Rushidie, “Joseph Anton – Uma Memória”. 

E ontem tive sexo com uma amiga. 

Tudo correu ás mil maravilhas (bebemos quase duas garrafas de vinho ao jantar, rimos muito e empatámos em orgasmos) e foi-se embora no momento preciso.   

Ao deitar-me tudo à minha volta estava muito calmo. 

Límpido. 

Reluzente. 

 

The Morning After, Fernando Botero

Nem um só pêlo dela ou um cabelo na almofada que pudesse colar-se nos meus sonhos. 

Esta tarde telefonaram-me para um “projecto” gastronómico e respondi, sim. 

Telefona-me um cliente do meu táxi. 

Amanhã levá-lo-ei a Lisboa, esperarei um par de horas, almoçarei por lá, darei um passeio e regressaremos justamente a tempo para o meu póquer das sextas-feiras na tasca do Xico. 

Disse-lhe que 200€… e pareceu-lhe bem. 

Esta tarde vi três vezes o filme, “O Despertar da Mente”. 

Provei um novo Whisky que um passageiro habitual me ofereceu. 

Reservei um bilhete para as Maldivas. 

Senti a chuva a percutir na janela. 

E Bowie a soar no iPad. 

E revi todos os ingredientes para o “projecto”. 

Encontro-me num grande momento criativo. 

Mas. 

Por que estou tão triste?
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