O VIDEIRINHO

sábado, maio 18, 2013

CASO ÚNICO???

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Agora que te deixei, retomei o meu velho hábito de ir sozinho a bons restaurantes. 

Poderá parecer estranho, mas a mim também me parece estranho o contrário: por que não concebemos sair e desfrutar dos prazeres da vida em solidão? por que consideramos “triste” ir só ao cinema, ou a um concerto, ou a um hotel em férias ou, como digo, a um bom restaurante? 

De facto, nunca vi mesas com um só cliente em restaurantes que necessitam de prévia reserva, excepto no meu caso. 

As pessoas entendem apenas desfrutar sozinhas quando o evento é privado (sorvete e pipocas, com um bom filme no sofá, ou sucumbir à nobre arte da masturbação...). 

Talvez prevaleça o medo do que dirão se o plano em solidão é público. 

Não tenho outra explicação. 

 

Em qualquer caso, ainda que vá sozinho, encanta-me interagir com o ambiente. 

Por isso quando telefono para reservar, costumo pedir mesa para dois e quando chego, e o maître acompanha-me até à mesa e peço vinho, simulo que o meu acompanhante está prestes a chegar. 

Gosto de ver o maître, o escanção e os empregados pendentes de mim. 

Preocupados. 

Volta e meia olho para o relógio e tamborilo com os dedos na mesa, para dar um ar de maior tensão ao assunto e quando já passou um tempo razoável peço a carta com ar entristecido e depois janto, mastigando devagar e lânguidamente, mas interiormente feliz. 

 

Costumo vê-los cochichar entre si e às vezes aproxima-se também, o arrumador de carros, que suponho dizer-lhes que sou taxista, que vim no meu táxi e lhe dei as chaves do meu táxi, o qual os leva a ser ainda mais afectuosos comigo. 

Pensam, suponho, que para me permitir semelhante menú tive que poupar e que, para piorar, o meu convidado especial deu-me seca. 

Depois acabam, inclusive, convidando-me para o vinho, ou para um digestivo após a sobremesa. 

Mas gosto muito mais de pedir mesa para um. 

Assim acreditam que sou crítico gastronómico ou jurado do Guia Michelin e tratam-me melhor que ao melhor dos seus clientes. 

 
Nestes casos, costumo sacar de um bloco de apontamentos e tomar umas notas entre pratos, para lhe dar mais eloquência ao assunto. 

Depois pago e ao sair solto umas frases tranquilizadoras: 
“O carpaccio estava delicioso”, ou “Dêem os meus parabéns ao chefe. Terão notícias minhas”. 

Depois, ao chegar a casa, deito-me na cama e dá-me para imaginar quando for velhinho, com um desses pulsadores de emergência dependurado ao pescoço e adormeço… e sonho, o que sonha o rei de uma ilha deserta.
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1 comentário:

Tétisq disse...

sonha estar feliz a comer sozinho num restaurante e ser bem recebido, porque pensam que é um critico gastronómico...