O VIDEIRINHO

terça-feira, junho 04, 2013

A CEGA

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Rua do Bonfim, passeio defronte da Delegação do Porto da ACAPO. 

Uma mulher invisual espera na beira do passeio com um cartaz entre as mãos com a palavra “Táxi”. 

Paro junto a ela e estico-me para abrir-lhe a porta por dentro. 

- Entre! 

A mulher tacteia o fecho da porta e entra, com a sua bengala, sentando-se. 

- Leve-me ao mesmo sítio de ontem. 

- Perdão? 
Creio que se confundiu com o taxista. 
Eu ontem não... 

- Sou cega, sim.
Mas você não é surdo, não é verdade? 
Disse-lhe para me levar ao mesmo local de ontem. 
Insistiu. 

- Confuso, inicio a marcha enquanto trato de enquadrar o seu rosto no espelho retrovisor. 

Os seus olhos são brancos, nublados, mas há algo neles que nos aprisiona: parecem falar ainda que não olhem. 

É difícil de explicar, mas dizem coisas, hipnotizam, emitem mensagens que não sei como, nem porquê, consigo decifrar. 


Agora parecem indicar-me que vire à direita em António Carneiro. 

E assim faço. 

A mulher apercebe-se da manobra e sorri. 

Uns metros mais tarde, movido pela expressão cega dos seus olhos, viro à esquerda na Rua do Heroísmo. 

Rotunda do Freixo, Rua da Senhora da Hora... e depois Rua do Bacelo. 

Sempre atento às indicações do seu ténue olhar adentramo-nos num caminho de pedras e algumas árvores. 

Ao fundo do caminho distingo um casarão de três pisos com várias janelas iluminadas. 

- Pare o táxi junta da porta. 
Dona Cláudia deve estar furiosa, diz-me a cega. 

Efectivamente, uma mulher de idade indefinida, ar rude e casaco grosso, espera-nos apoiada no corrimão. 

 

Mal paro o táxi abre a minha porta e visivelmente chateada, diz-me: 

- Chega dez minutos atrasado, José Torres. 
Esta noite não haverá sobremesa, nem televisão. 
Depois de jantar vai directo para a cama. 

- Disse-lho, insiste a cega. 

Saio do táxi. 

Junto à porta de acesso, um pequeno letreiro iluminada dá-me as boas-vindas. 

Debaixo, com letras pequenas, o nome do hospício. 

Relato escrito a três mãos. 
Ou melhor, com as minhas mãos e a sabedoria do teclado.
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