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Rua do Bonfim, passeio defronte da Delegação do Porto da ACAPO.
Uma mulher invisual espera na beira do passeio com um cartaz entre as mãos com a palavra “Táxi”.
Paro junto a ela e estico-me para abrir-lhe a porta por dentro.
- Entre!
A mulher tacteia o fecho da porta e entra, com a sua bengala, sentando-se.
- Leve-me ao mesmo sítio de ontem.
- Perdão?
Creio que se confundiu com o taxista.
Eu ontem não...
- Sou cega, sim.
Mas você não é surdo, não é verdade?
Disse-lhe para me levar ao mesmo local de ontem.
Insistiu.
- Confuso, inicio a marcha enquanto trato de enquadrar o seu rosto no espelho retrovisor.
Os seus olhos são brancos, nublados, mas há algo neles que nos aprisiona: parecem falar ainda que não olhem.
É difícil de explicar, mas dizem coisas, hipnotizam, emitem mensagens que não sei como, nem porquê, consigo decifrar.
Agora parecem indicar-me que vire à direita em António Carneiro.
E assim faço.
A mulher apercebe-se da manobra e sorri.
Uns metros mais tarde, movido pela expressão cega dos seus olhos, viro à esquerda na Rua do Heroísmo.
Rotunda do Freixo, Rua da Senhora da Hora... e depois Rua do Bacelo.
Sempre atento às indicações do seu ténue olhar adentramo-nos num caminho de pedras e algumas árvores.
Ao fundo do caminho distingo um casarão de três pisos com várias janelas iluminadas.
- Pare o táxi junta da porta.
Dona Cláudia deve estar furiosa, diz-me a cega.
Efectivamente, uma mulher de idade indefinida, ar rude e casaco grosso, espera-nos apoiada no corrimão.
Mal paro o táxi abre a minha porta e visivelmente chateada, diz-me:
- Chega dez minutos atrasado, José Torres.
Esta noite não haverá sobremesa, nem televisão.
Depois de jantar vai directo para a cama.
- Disse-lho, insiste a cega.
Saio do táxi.
Junto à porta de acesso, um pequeno letreiro iluminada dá-me as boas-vindas.
Debaixo, com letras pequenas, o nome do hospício.
Relato escrito a três mãos.
Ou melhor, com as minhas mãos e a sabedoria do teclado.
Ou melhor, com as minhas mãos e a sabedoria do teclado.
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