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Estou a "cozer" estas linhas num bar, na única mesa que estava livre, justamente debaixo dum enorme televisor.
Estão a jogar futebol e assim, os “devotos”, uns 20, olham como se fosse para mim, mas mais para cima.
Sinto-me observado ainda que ninguém me ligue puto.
Como Strike (banda do pop punk brasileiro).
É difícil escrever enquanto todo o mudo parece que te olha e berra:
Oaaaa… Uiiii…. Boaaa… ao mesmo tempo que digito, como se escutasse as minhas frases em tempo real.
Isto gera-me uma pressão bastante estúpida, mas vai funcionando.
Obriga-me a escrever mais concentrado.
Goolo!, gritam todos.
Dois homens abraçam-se.
Atrás, uma garota olha-me.
Veste uma t-shirt de "Os Belenenses" com o seu nome gravado: NATÁLIA.
O seu parceiro é o tipo que acaba de abraçar o outro.
Ela apenas sorriu com o golo da sua equipa.
Suponho que se converteu ao futebol para compartilhar a clubite dele.
Tão absurdo é o amor.
Tão absurdo é o futebol.
Olho para Natália e escrevo.
Volto a olhar e volto a escrever.
Nada atrai mais uma mulher que a sua própria curiosidade.
Ela sabe que estou a escrever sobre ela, mas não sabe o quê.
Sabe que me inspira, mas não em que direcção.
De facto, para ela agora o futebol não existe.
Olha-me e franze as sobrancelhas, confusa.
O seu parceiro continua com o braço sobre o ombro do outro tipo.
Para ele só existe o televisor.
A equipa da sua vida.
Cada vez que se move e me tapa a visão da sua parceira, ela move-se e procura-me com o olhar.
Voltamos a manter o contacto e sorrio.
Atenta ao meu sorriso, ela olha o seu parceiro e abraça-o, mas ele afasta-a e continua a comentar as jogadas com o seu amigo.
O futebol é coisa de homens.
Pelo menos para ele.
Ela levantou-se e foi ao WC.
Agora volta, (3 minutos).
Com efeito, esperei que saísse do WC e "fiz-me" de conta a um encontro casual.
Tirada DAQUI
Previamente escrevi num guardanapo uma nota para ela:
"A mim tão-pouco me interessa o futebol. Mantenho o segredo”.
Consegui dar-lha, com os meus olhos a escassos dez centímetros dos seus.
Entrei no WC dos cavalheiros, deixando a porta entreaberta e aí pude ver que ela voltou a entrar no seu quarto de banho para lê-la.
É importante entender a sua reacção.
Procurou a intimidade para ler a minha nota escrita.
Não a recusou, nem a atirou ao solo.
Escondeu-se para ler a minha nota.
Dadas as circunstâncias, o mais lógico teria sido esperar que ela saísse do WC, para conhecer a sua reacção, ou para dar o passo seguinte, mas inquieta mais pelo imprevisível; assim saí e voltei para a minha mesa.
Ela ainda tardou um par de minutos antes de voltar.
Pensou durante três ou quatro longos minutos na nota e na situação que eu tinha provocado.
Ao voltar a juntar-se ao seu parceiro voltou a mirar-me.
Continua a olhar-me.
Agora sem qualquer pudor.
Olha-me fixamente e eu a ela.
Quis interpretar um sinal de socorro nos seus olhos; talvez seja.
Acaba o jogo.
Aproximo-me do balcão para pedir a conta.
Nisto cruzo-me com o seu parceiro e pergunto-lhe:
- Como ficou o jogo?
– Ganhámos.
– Duvido, disse-lhe.
Ela não está.
Perdi o seu rasto.
Pago, volto para a mesa e desligo o computador.
Irei para casa.
Ao abandonar o bar e entrar no meu táxi (estacionado mesmo á porta), encontrei o mesmo guardanapo, que tinha escrito para Natália, no limpa-párabrisas.
Abaixo da minha nota havia um número de telefone, escrito a esferográfica e uma indicação:
“Lig-me mnhã das 8 pás 8,30 da maã. Eu t/cntari”.
Rasguei o guardanapo.
Não gosto de madrugar.
Nem de abreviaturas…
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