O VIDEIRINHO

segunda-feira, junho 24, 2013

NATÁLIA

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Estou a "cozer" estas linhas num bar, na única mesa que estava livre, justamente debaixo dum enorme televisor. 

Estão a jogar futebol e assim, os “devotos”, uns 20, olham como se fosse para mim, mas mais para cima. 

Sinto-me observado ainda que ninguém me ligue puto. 

Como Strike (banda do pop punk brasileiro)

 É difícil escrever enquanto todo o mudo parece que te olha e berra:
Oaaaa… Uiiii…. Boaaa… ao mesmo tempo que digito, como se escutasse as minhas frases em tempo real. 

Isto gera-me uma pressão bastante estúpida, mas vai funcionando. 

Obriga-me a escrever mais concentrado. 

Goolo!, gritam todos. 

Dois homens abraçam-se. 

Atrás, uma garota olha-me. 

Veste uma t-shirt de "Os Belenenses" com o seu nome gravado: NATÁLIA. 

O seu parceiro é o tipo que acaba de abraçar o outro. 

Ela apenas sorriu com o golo da sua equipa. 

Suponho que se converteu ao futebol para compartilhar a clubite dele. 

Tão absurdo é o amor. 

Tão absurdo é o futebol. 



Olho para Natália e escrevo. 

Volto a olhar e volto a escrever. 

Nada atrai mais uma mulher que a sua própria curiosidade. 

Ela sabe que estou a escrever sobre ela, mas não sabe o quê. 

Sabe que me inspira, mas não em que direcção. 

De facto, para ela agora o futebol não existe. 

Olha-me e franze as sobrancelhas, confusa. 

O seu parceiro continua com o braço sobre o ombro do outro tipo. 

Para ele só existe o televisor. 

A equipa da sua vida. 

Cada vez que se move e me tapa a visão da sua parceira, ela move-se e procura-me com o olhar. 

Voltamos a manter o contacto e sorrio. 

Atenta ao meu sorriso, ela olha o seu parceiro e abraça-o, mas ele afasta-a e continua a comentar as jogadas com o seu amigo. 

O futebol é coisa de homens. 

Pelo menos para ele. 

Ela levantou-se e foi ao WC. 

Agora volta, (3 minutos). 

Com efeito, esperei que saísse do WC e "fiz-me" de conta a um encontro casual. 

 Tirada DAQUI

Previamente escrevi num guardanapo uma nota para ela: 
"A mim tão-pouco me interessa o futebol. Mantenho o segredo”. 

Consegui dar-lha, com os meus olhos a escassos dez centímetros dos seus. 

Entrei no WC dos cavalheiros, deixando a porta entreaberta e aí pude ver que ela voltou a entrar no seu quarto de banho para lê-la. 

É importante entender a sua reacção. 

Procurou a intimidade para ler a minha nota escrita. 

Não a recusou, nem a atirou ao solo. 

Escondeu-se para ler a minha nota. 

Dadas as circunstâncias, o mais lógico teria sido esperar que ela saísse do WC, para conhecer a sua reacção, ou para dar o passo seguinte, mas inquieta mais pelo imprevisível; assim saí e voltei para a minha mesa. 

Ela ainda tardou um par de minutos antes de voltar. 

Pensou durante três ou quatro longos minutos na nota e na situação que eu tinha provocado. 

Ao voltar a juntar-se ao seu parceiro voltou a mirar-me. 

Continua a olhar-me. 



Agora sem qualquer pudor. 

Olha-me fixamente e eu a ela. 

Quis interpretar um sinal de socorro nos seus olhos; talvez seja. 

Acaba o jogo. 

Aproximo-me do balcão para pedir a conta. 

Nisto cruzo-me com o seu parceiro e pergunto-lhe: 

- Como ficou o jogo? 

– Ganhámos. 

– Duvido, disse-lhe. 

Ela não está. 

Perdi o seu rasto. 

Pago, volto para a mesa e desligo o computador. 

Irei para casa. 

Ao abandonar o bar e entrar no meu táxi (estacionado mesmo á porta), encontrei o mesmo guardanapo, que tinha escrito para Natália, no limpa-párabrisas. 

Abaixo da minha nota havia um número de telefone, escrito a esferográfica e uma indicação:

“Lig-me mnhã das 8 pás 8,30 da maã. Eu t/cntari”. 

Rasguei o guardanapo. 

Não gosto de madrugar. 

Nem de abreviaturas…
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