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É uma porra
duma loucura viver imerso na literatura e conduzir o táxi pensando em dar forma
a uma cena e de repente alguém te mande parar; travas ao seu lado, entra e indica-te
um destino e tu, no entanto, continuas com a tua obstinação, imaginando a
descrição de tal e qual personagem a milhentos quilómetros de tudo.
Nisto, o utente nas tuas costas tenta entabular conversa, ou fala-te da sua vida e, sem querer, mistura-se na tua cabeça, a realidade daquele homem com a tua ficção literária e filtra-se o que diz com a tua história e surge-te uma nova história, ou a mesma história mas mais complexa (ao ponto de te meteres bem mais em ti mesmo, quase até roçares o avesso da alma) e te despistes em pensamentos e esqueças o destino daquele homem ou mudes o trajecto e o homem te diga estranhado:
Nisto, o utente nas tuas costas tenta entabular conversa, ou fala-te da sua vida e, sem querer, mistura-se na tua cabeça, a realidade daquele homem com a tua ficção literária e filtra-se o que diz com a tua história e surge-te uma nova história, ou a mesma história mas mais complexa (ao ponto de te meteres bem mais em ti mesmo, quase até roçares o avesso da alma) e te despistes em pensamentos e esqueças o destino daquele homem ou mudes o trajecto e o homem te diga estranhado:
- Por que anda ás voltas, se para minha casa é sempre em linha
recta?
E tu desculpas-te, pedes-lhe perdão:
- É que a minha noiva vive nesta
rua e deixei-me levar pelo hábito:
Ainda que o que lhe dizes seja uma enorme patranha.
Ainda que o que lhe dizes seja uma enorme patranha.
Não tens noiva e por este caminho não tê-la-ás nunca, mas também aproveitas o
giro para dar um novo rumo literário ao assunto; volta-se-te a pirar a cabeçorra outra vez e metes-te pela rua que
não era e o passageiro volta a bramar:
- Mas que está a fazer?
Está a brincar
comigo?
Quer que o denuncie à polícia?
É esta palavra, polícia, que te leva a
considerar a possibilidade de mudar de profissão do protagonista da tua
história.
E se em vez de oficial de diligências fosse polícia?
Encaixaria
melhor.
Então notas que o passageiro bate-te no ombro.
– Páre aqui, quero sair!
Páras e o passageiro sai a correr sem pagar-te a corrida, mas em vez de te
preocupares por teres perdido, dez? doze euros? alegras-te porque agora o táxi
está livre e por fim poderás parar em qualquer bar, beberás e pegando em caneta
e bloco de notas, derramarás todas essas ideias frescas e quando acabares o que
pensas escrever, sentir-te-ás como Deus ao sétimo dia, sem dez ou doze euros
(mais o que gastares em “combustível”, cerveja ou outras bebidas), mas feliz
por teres encontrado o teu objectivo na vida, escrever:
Só vales isso, sabe-lo bem, porque absolutamente tudo o mais no fundo, importa-te um car**ho!!!
Só vales isso, sabe-lo bem, porque absolutamente tudo o mais no fundo, importa-te um car**ho!!!
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