O VIDEIRINHO

sábado, junho 01, 2013

DELÍCIAS IMAGINÁRIAS

.

É uma porra duma loucura viver imerso na literatura e conduzir o táxi pensando em dar forma a uma cena e de repente alguém te mande parar; travas ao seu lado, entra e indica-te um destino e tu, no entanto, continuas com a tua obstinação, imaginando a descrição de tal e qual personagem a milhentos quilómetros de tudo.

Nisto, o utente nas tuas costas tenta entabular conversa, ou fala-te da sua vida e, sem querer, mistura-se na tua cabeça, a realidade daquele homem com a tua ficção literária e filtra-se o que diz com a tua história e surge-te uma nova história, ou a mesma história mas mais complexa (ao ponto de te meteres bem mais em ti mesmo, quase até roçares o avesso da alma) e te despistes em pensamentos e esqueças o destino daquele homem ou mudes o trajecto e o homem te diga estranhado:

 
  - Por que anda ás voltas, se para minha casa é sempre em linha recta? 

E tu desculpas-te, pedes-lhe perdão:

- É que a minha noiva vive nesta rua e deixei-me levar pelo hábito:

Ainda que o que lhe dizes seja uma enorme patranha. 

Não tens noiva e por este caminho não tê-la-ás nunca, mas também aproveitas o giro para dar um novo rumo literário ao assunto; volta-se-te a pirar a cabeçorra outra vez e metes-te pela rua que não era e o passageiro volta a bramar: 

- Mas que está a fazer? 
Está a brincar comigo? 
Quer que o denuncie à polícia? 

É esta palavra, polícia, que te leva a considerar a possibilidade de mudar de profissão do protagonista da tua história. 

E se em vez de oficial de diligências fosse polícia? 

 

Encaixaria melhor. 

Então notas que o passageiro bate-te no ombro. 

– Páre aqui, quero sair! 

Páras e o passageiro sai a correr sem pagar-te a corrida, mas em vez de te preocupares por teres perdido, dez? doze euros? alegras-te porque agora o táxi está livre e por fim poderás parar em qualquer bar, beberás e pegando em caneta e bloco de notas, derramarás todas essas ideias frescas e quando acabares o que pensas escrever, sentir-te-ás como Deus ao sétimo dia, sem dez ou doze euros (mais o que gastares em “combustível”, cerveja ou outras bebidas), mas feliz por teres encontrado o teu objectivo na vida, escrever:

Só vales isso, sabe-lo bem, porque absolutamente tudo o mais no fundo, importa-te um car**ho!!! 
.

Sem comentários: