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Ligo o computador, conecto-me à internet e acedo ao editor deste blog
(Blogger).
Clico na aba “Mensagem nova” e no mesmo instante abre-se um quadro
de texto (sem texto, como é evidente).
É o mesmo ritual de cada dia, ao longo
destes últimos longos seis anos: começar a escrever aconteça o que acontecer,
digitando palavra após palavra, formar uma ideia, dar-lhe corpo, acrescentar,
remover, ir-me abaixo um instante ou elevar-me a mil, a intervalos de
milésimas.
Começar a escrever implica ter tempo, apartar os problemas do
quotidiano, ou melhor ainda, borrifar-me neles.
Ás vezes escrevo sobre
passageiros que na realidade são traumas disfarçados de tipos gordos com
bigode, viajando num táxi imaginário.
Chamo-lhes “montes de conversa fiada
literária”, personagens inventadas que servem para aplacar a minha ira.
Por vezes
escrevo com tanta raiva que, inclusivamente, até saltam as teclas do
computador.
Recordo uma ocasião que em pleno orgasmo criativo saltou pelos ares
a tecla “Z” e em vez de voltar a encaixá-la no teclado (estava on fire), meti-a
na boca.
E imediatamente, sem querer, engoli-a.
Passei vários dias sem pegar
olho, sentindo cólicas ou convulsões cada vez que escutava ou lia qualquer
palavra que incluísse a letra “Z”.
Foi o meu psiquiatra quem conseguiu
acalmar-me:
“Esquece essa merda dessa tecla.
A letra “Z” é surda, por amor de
Deus”.
Escrevo estas linhas a partir duma esplanada, com WiFi, de um bar em
Angeiras.
Deixei uma passageira muito perto daqui, vi a esplanada e aparquei o
táxi.
Funciono sempre assim: deixando-me levar pelo acaso.
Sem horários.
Sem lugares
fixos.
Sem chefes.
Sem pressões.
Nunca me senti obrigado a escrever.
Além
disso, não me pagam para isso.
Sou livre.
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4 comentários:
Pensando bem, é um defeito do blogger, ao abrir, já devia vir com um texto (suponho que a evolução da tecnologia lá chegará.
E, logo o Z...
Táxi Pluvioso
Quanto tempo se poupava...
Tétisq
Mas é mesmo verdade, não tenho o "Z".
Não foi +por ter comprado o portátil em peças... (rsrsrs), foi-se.
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