O VIDEIRINHO

sexta-feira, junho 28, 2013

PREMEDITADO

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Era tão bela como ausente das ruas, dos carros e, sobretudo, de mim. 

Imediatamente a ter-me indicado o destino não muito longínquo, pegou no seu iPhone entre os dedos e colocou-o sobre as pernas e assim o manteve, teclando e sorrindo o que lia, colada sempre ao visor de cristais líquidos, sem levantar a vista por nada e muito menos por mim. 

Precisamente por isso, pelo meu ataque de solidão em conflito com a sua beleza, não me ocorreu outra coisa que chamar a sua atenção mediante um método talvez algo bruto (por acaso o amor à primeira vista não o será?) ainda que resulte sempre: pisar bruscamente no travão com a desculpa, que eu sei, de algum gato imaginário que se cruzou de repente ou uma pomba ou um buraco… qualquer coisa mais ou menos plausível. 


E se melhor o pensei, mais depressa o executei, mas não calculei ou calculei mal a potência da travagem. 

Não esperava que ela, ou melhor, a cabeça dela acabasse enfaixando-se contra as costas do banco dianteiro, saltando ao mesmo tempo o iPhone pelo ar. 

Face á violência do impacto soltei o pedal do travão e nesse momento ela recuperou a sua posição inicial. 

Agora tinha o lábio inferior ensanguentado e os dentes da frente também. 

Deitou uma mão à boca, viu o sangue e exclamou: 
- O que se passou? 

– Merda! Foi um gato que se cruzou num repente. 
Está bem? 

Disse parando o táxi encostado ao passeio. 

– Sorte a minha! 
Estou… a sangrar? 

– Temo que sim. 
Deixe-me ver. 

Acerquei os braços por entre os bancos da frente, coloquei dois dedos no seu queixo (acetinado; muito suave ao tacto) e puxei-a com cuidado para ver melhor a ferida. 


Era apenas um pequeníssimo corte provocado, supus, pelo impacto do gume dos seus dentes contra o mesmo lábio. 

Procurei uma embalagem de lenços de papel e estendi-lha. 

– Sinto muito, disse-lhe. 

– Tenha calma. 
A culpa foi minha. 
Deveria estar mais atenta ou, pelo menos, ter colocado o cinto de segurança. 
Já agora onde está o meu telemóvel. 

– Espere que eu procuro-o. 
Saltou pelos ares – tacteei debaixo dos bancos dianteiros e encontrei-o; estendi-lho, aproveitando para roçar os seus dedos com os meus. 

– Obrigado. 
Parece que não se avariou. 
Do mal o menos…

Espere um momento. 
Vou entrar naquele café e pedir uma pedra de gelo para colocar no lábio. 

– Não, não. 
Calma. 
Não se preocupe. 
Não parece que seja nada. 
Só um pouco de sangue, disse, lambendo o lábio com a ponta da língua; momento cardíaco. 
Não sucedeu mais nada. 


Continuámos o trajecto e ao sair, neguei cobrar a viagem, pelo incómodo. 

Saiu e foi-se… com o meu lenço de papel no lábio e eu senti-me mal e bem. 

Culpado por aquele golpe sujo que não pretendia, mas bem porque a bela jovem se lembraria de mim enquanto durasse a irritação daquele pequeno corte no seu lábio (que tocaria uma ou outra vez com a sua mesma língua), mas culpado também por sentir-me pela sua ferida (que tocaria uma ou outra vez com a sua mesma língua), mas bem… e sem dúvida culpado porque a bela jovem se recordaria de mim… … num insuportável circulo vicioso...
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