O VIDEIRINHO

quarta-feira, junho 12, 2013

SONOS E SONHOS

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Para mim, um dos melhores momentos do dia é quando ele finaliza... uma vez na cama, os breves segundos que antecedem o sono são extraordinários, o corpo ignora a gravidade, as pálpebras sabendo da sua inutilidade, caem rendidas, sem resistência. 

Esses segundos não têm medida de tempo, podes sentir como tudo o que te rodeia passa a fazer parte de um cenário sem importância, a escuridão apaga-se e o raciocínio desvanece-se dando passo à criatividade. 

É nesse instante que o cérebro aproveita a noite para actuar sem ser observado e desfrutar sem ser julgado, provavelmente esses instantes representam a verdadeira liberdade do ser humano. 

Eu tenho sonhos maus e sonhos bons, cheguei a sonhar que um desalmado que me apunhalava, sentindo mesmo o frio metal entre as minhas “tripas” e asseguro que isso dói. 

 
"O sono da razão produz monstros" - Francisco de Goya

Mas à poucos sonhos atrás, recebia outra visita com melhores intenções, umas mãos femininas moldavam suavemente o meu pescoço e com delicadeza faziam-me entrega de um delicioso beijo com sabor a lágrima, menta e açúcar, um beijo desses que não se esquecem, parecendo que esse beijo se tivesse preparado minuciosamente antes da sua entrega, entrega que curiosamente provinha de uns lábios inacessíveis, para mim, durante o dia... quando acordas, o teu peito inunda-se com uma estranha sensação de ressaca sentimental e emocional. 

 
"Sono sem sonhos" de Abigail Vasthi Schlemm

Através dos sonhos podes fazer tudo, inclusivamente o mais íntimo com a pessoa mais inverosímil que possas imaginar; podes visitar e abraçar os ausentes, caminhar nu no lombo de um elefante azul, podes ser um anti-herói, chorares até encharcares a almofada, fazer amor sem sexo, teres muito sexo sem amor, conhecer outro tipo de desconhecidos, estrangular o teu chefe, viajar sem pesadas malas, sentar-te na tua velha carteira de escola, mergulhares entre nuvens e whisky, ou ser lapidado por trinta e sete notários sem gravata...; reconhecerão que durante o dia as nossas possibilidades se reduzem consideravelmente em rígidos emaranhados e complexas barreiras. 


Creio sinceramente que os sonhos são uma ferramenta natural para não enlouquecermos quando estamos despertos, digamos que são um refúgio natural nocturno do pântano do nosso social diário. 

Os sonhos são tão 'flipantes' que nunca me interessei interpretá-los, compreendê-los ou desencriptá-los, creio que este esforço é preferível aplicá-lo no que ocorre durante o dia ao meu redor. 

A privação do sono é um dos mais efectivos métodos de tortura e a proibição e esterilização dos sonhos o mais cruel dos pesadelos. 

Faz agora cinco anos que “ensinei a voar”, o meu despertador.
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