.
Há poucos dias fui testemunha de uma conversação entre dois assessores bolsistas, ambos residentes na City de Londres, em viagem de negócios pelo Porto.
Apanharam o táxi no aeroporto de Pedras Rubras, sem bagagem, com destino ao Restaurante Terra, na Rua do Padrão (Foz), só para “comer” com um cliente e de seguida apanharem o avião de volta.
Durante o trajecto, como digo, falaram da estratégia a seguir com este cliente, apodado, por eles mesmos, como “pai filho da puta”.
Para ambos, e em petit comité, todos os seus clientes compartilhavam o apelativo de “filhos da puta” em diferentes graduações de parentesco segundo o volume da massa que manejassem, bem como a sua “maior ou menor capacidade para não ter escrúpulos” (literal).
Também se referiram a eles como “doentes” e “psicopatas das finanças”.
Neste caso, pelos vistos, “papá filho da puta” queria que os meus dois utentes lhe “colocassem” um “pacote quente” de 12 milhões (de euros ou dólares, não o disseram) “a três meses”.
Falaram de percentagens e ganhos que não direi (porque podeis estar-me a ler em horário infantil).
Também chamou a minha atenção a sua capacidade para alternar o português com terminologia anglo-saxónica (tecnicismos económicos impossíveis de traduzir), como se tivessem criado uma linguagem própria só entendível por eles, convertendo assim que a modos de complexo, o que, no fim de contas, poderia resumir-se no seguinte: a Bolsa não é mais que um casino onde os pequenos jogadores por vezes ganham e os grandes nunca perdem.
Aí está o problema: os grandes nunca perdem.
Nem mesmo quando criaram a actual crise mundial.
Desta vez deram-lhe tão forte à roleta que a bolita saltou e o croupier assalariado perdeu um olho.
E esse olho perdido (por culpa, suponho, de um rápido efeito da coca do que lançou a bola) gangrenou em recortes sociais, mais desemprego, incumprimento nas moradias e andares, nos veículos e demais penúrias, para o resto dos mortais que limpamos as suas mesas de jogo e continuamos a limpar e continuaremos limpando até que se nos inchem de todo os tomates.
Agora os nossos governos também são croupiers que trabalham para os grandes.
Esta nova e falsa democracia consiste em votar nuns tipos que farão o que dizem esses grandes “jogadeiros”.
E eu não votei no jogadeiro.
E os meus tomates estão roxos.
Roxos de raiva.
Por isso também apoiarei uma qualquer manifestação pelo manto de miséria que se abateu pelo meu país.
Espero que quando chegar a hora, também tu estejas presente, ainda que seja só para defenderes sem coágulos, esse sangue que te corre nas veias.
12SET2009
.



Sem comentários:
Enviar um comentário