O VIDEIRINHO

quinta-feira, junho 27, 2013

VAMPIROS

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Há poucos dias fui testemunha de uma conversação entre dois assessores bolsistas, ambos residentes na City de Londres, em viagem de negócios pelo Porto. 

Apanharam o táxi no aeroporto de Pedras Rubras, sem bagagem, com destino ao Restaurante Terra, na Rua do Padrão (Foz), só para “comer” com um cliente e de seguida apanharem o avião de volta. 

Durante o trajecto, como digo, falaram da estratégia a seguir com este cliente, apodado, por eles mesmos, como “pai filho da puta”. 

Para ambos, e em petit comité, todos os seus clientes compartilhavam o apelativo de “filhos da puta” em diferentes graduações de parentesco segundo o volume da massa que manejassem, bem como a sua “maior ou menor capacidade para não ter escrúpulos” (literal). 

Também se referiram a eles como “doentes” e “psicopatas das finanças”. 

Neste caso, pelos vistos, “papá filho da puta” queria que os meus dois utentes lhe “colocassem” um “pacote quente” de 12 milhões (de euros ou dólares, não o disseram) “a três meses”. 


Falaram de percentagens e ganhos que não direi (porque podeis estar-me a ler em horário infantil). 

Também chamou a minha atenção a sua capacidade para alternar o português com terminologia anglo-saxónica (tecnicismos económicos impossíveis de traduzir), como se tivessem criado uma linguagem própria só entendível por eles, convertendo assim que a modos de complexo, o que, no fim de contas, poderia resumir-se no seguinte: a Bolsa não é mais que um casino onde os pequenos jogadores por vezes ganham e os grandes nunca perdem. 

Aí está o problema: os grandes nunca perdem. 

Nem mesmo quando criaram a actual crise mundial. 

Desta vez deram-lhe tão forte à roleta que a bolita saltou e o croupier assalariado perdeu um olho. 


E esse olho perdido (por culpa, suponho, de um rápido efeito da coca do que lançou a bola) gangrenou em recortes sociais, mais desemprego, incumprimento nas moradias e andares, nos veículos e demais penúrias, para o resto dos mortais que limpamos as suas mesas de jogo e continuamos a limpar e continuaremos limpando até que se nos inchem de todo os tomates. 

Agora os nossos governos também são croupiers que trabalham para os grandes. 

Esta nova e falsa democracia consiste em votar nuns tipos que farão o que dizem esses grandes “jogadeiros”. 

E eu não votei no jogadeiro. 

E os meus tomates estão roxos. 

Roxos de raiva. 

Por isso também apoiarei uma qualquer manifestação pelo manto de miséria que se abateu pelo meu país. 

Espero que quando chegar a hora, também tu estejas presente, ainda que seja só para defenderes sem coágulos, esse sangue que te corre nas veias.

12SET2009
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