O VIDEIRINHO

segunda-feira, junho 10, 2013

RELAXE

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Passei a tarde a empilhar capítulos de “The Wire” (3 horas), a limpar com uma escova, as juntas dos azulejos da cozinha (45 minutos) e a furar e arquivar recibos da luz e a consertar uma carcaça de um lustre de Ikea (1 hora e 20 minutos), mas nada disto conseguiu aplacar a minha ansiedade por ter dado trela a Marta, uma dessas amigas "Grande Reserva" com direito a orgasmo. 

Chamou-me para ficar (pisca... piscadela de olhos rapida) e respondi-lhe que não podia, tinha que levar o esquilo ao veterinário. 

– Não sabia que tinhas um esquilo. 

Eu tão-pouco, pensei. 

De qualquer maneira fiquei de lhe telefonar mais tarde e fi-lo. 

Várias horas depois de pendurar o lustre do IKEA consertado, voltei a telefonar-lhe, entre soluços, para lhe dizer que o meu esquilo tinha morrido e que estava a pensar em demandar o veterinário por negligência e que ela, como advogada, talvez me pudesse representar no processo a mover. 

 

Disse-me que nunca se tinha deparado com um caso assim, que verificaria no Código e que, de qualquer maneira, poderíamos encontrarmo-nos combinar para aprofundar os detalhes. 

"Aprofundar", voltou a soar-me a sexo e eu continuava sem sentir-me preparado, mas talvez com a desculpa do meu recente luto, poderia evitar esta parte e encontrarmo-nos só como amigos, sem a intimidade habitual. 

Assim, acedi. 

Fiquei de recolhê-la com o táxi e levá-la a jantar à Cunha. 


Marta levava um vestido preto, cingido, meias pretas e cabelo com franja à Uma Thurman em Pulp Fiction. 

Estava incrível. 

Ao entrar para o táxi deu-me um beijo no canto da boca. 

– Sinto muito o que aconteceu ao teu esquilo. 

 

Com isto desatei a chorar e abracei-me a ela. 

Nunca antes tinha chorado pela perda de um bicho imaginário, mas aquilo resultou numa autêntica libertação para mim, muito melhor que vinte horas de terapia, melhor inclusive que uma caixa de Xanax. 

Durante o jantar, Marta escutou os meus lamentos e prometeu ajudar-me jurídica e emocionalmente. 

Depois tomámos uns copos e despedimo-nos com um casto beijo nos lábios. 

Foi a primeira vez em muitos anos que o encontro não acabou em sexo e, nessa noite, dormi como um esquilo. Um esquilo vivo, entenda-se. 
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