O VIDEIRINHO

domingo, junho 09, 2013

BEIJO CEGO

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A uns cinquenta metros do meu táxi vi um homem parado no passeio com óculos de sol, uma bengala e um cartaz de “TÁXI” entre as suas mãos. 

O meu era o único táxi livre na rua, assim avancei vagarosamente até ele (o tráfico era intenso e a rua estreita, de sentido único) com a intenção de deter-me à sua altura, ajudá-lo a entrar e depois levá-lo onde desejasse. 

Mas antes de consegui-lo sucedeu algo inesperado. 

O carro anterior ao que me precedia, um VW Golf vermelho, deteve-se à altura do cego, abriu por dentro a porta do "lugar do morto" e depois de trocar umas palavras com ele, este dobrou a sua bengala e entrou no carro. 

Buzinei desalmadamente. 

Sem qualquer dúvida que aquele condutor se fez passar por taxista com a intenção de estafar o pobre cego. 

Como a rua era estreita e apenas se interpunha outro carro, não tive outro remédio que esperar que o falso táxi se detivesse no semáforo seguinte para me acercar e censurá-lo pela sua falta de escrúpulos.


Mas o trânsito estava fluido e o Golf continuou rua fora até ao cruzamento com a Rua do Bonfim e prosseguiu em frente para a Avenida Fernão de Magalhães. 

Aí aproveitei e tentei ultrapassar outros carros para alcançá-lo. 

Por sorte, um deles era um carro da Polícia. 

Buzinei para chamar a sua atenção. 

Enquanto avançávamos, o carro patrulha baixou o seu vidro e eu o meu. 

Gritei para o agente da polícia: 

- Detenham aquele Golf vermelho. 

Sem mais nada foram atrás do Golf e eu também. 

Foi abordado quando já se detinha no semáforo: o carro patrulha parou à sua esquerda e eu à sua direita. 

 Mas pouco depois de me deter e me dirigir para ele, fiquei pálido. 


Encontrei o cego virado para o condutor do Golf (um tipo loiro e bem parecido). 

Estava a beijá-lo na boca. 

Um dos polícias saiu do carro e aproximou-se de mim: 

- Quer que detenhamos esses homens por se beijarem? 

- Não... Desculpe. 

- Você é xenófobo? 

O polícia mandou-me à merda enquanto deixou que o condutor do Golf prosseguisse a sua marcha. 

Nota: 
Estou confuso. 

Talvez o tipo do Golf já o conhecesse, ou já tivessem sido um par, ou até tivesse acontecido uma coincidência por sorte. 

Ou talvez, por culpa de um farsante, fiquei sem saber a que sabe um beijo de um cego.
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2 comentários:

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Crônica genial...simplesmente!

Jose Torres disse...

Obrigada pela visita.
Uma boa semana.