O VIDEIRINHO

segunda-feira, junho 03, 2013

AO DEUS DARÁ

 .

Entrou no meu táxi um tipo estranho, sandálias e meias aos quadrados, abriu um enorme mapa diante de mim, assinalou no mapa a rua e disse-me: 
“Go here, please!”. 

O mapa era de Frankfurt, Alemanha. 

Tratei de explicar-lhe o erro, mas parecia não entender-me, ou melhor, não quis entender-me. 

Depois fez um gesto de seguir adiante, “Straight, Straigt!”, iniciei a marcha e na terceira ou quarta rua, mandou-me virar à esquerda, “Left!” e cinco ou seis ruas depois, à direita, “Right!”. 

O caso é que aquele ‘indígena’ não tinha a mínima noção onde estava, nem onde ir e no entanto os seus olhos destilavam essa felicidade absoluta de quem norteia a seu desejo a sua própria vida. 

A dado momento disse-me, “Stop!”, sacou de uma nota de cem euros, não sei de que país (não verifiquei o número de série) e saiu andando calmamente. 

Dirigiu-se para a montra de uma mercearia onde se deteve e acariciou o vidro da montra. 

 

Para ser sincero, aquele homem fez-me uma certa inveja. 

Era tentador viver perdido, de modo que vou tentar daqui por diante comportar-me do mesmo modo. 

Num semáforo buzinou-me um carro, baixei o vidro e ele perguntou-me: 
– Desculpe, a Praça da Flores? 

– Sinto muito, mas não sou daqui, disse-lhe. 

O tipo baixou a vista para o logotipo de meu táxi e depois voltou a olhar-me estranhado. 

Lancei-lhe o meu melhor sorriso, e pela primeira vez em muito tempo senti-me perdido e livre como um TomTom pirata. 

Abriu o semáforo e poucos metros depois mandou-me parar uma mulher. 

Entrou no meu táxi e disse-me: 
– Boas tardes, leva-me à Rua do Rosário? 

– Bom dia, será tão amável que me indique o caminho? 
Estou perdido, disse-lhe fingindo nervosismo. 

– É novo? 
Assenti com a cabeça. 

Certamente que ela referia-se a “novo no táxi”, mas quis interpretá-lo como “novo nesta vida”. 

Sabia melhor. 

Novo na vida. 

Oxalá. 

Em qualquer caso, indicou-me amavelmente o caminho a seguir. 

– Faça essa rotunda completamente e depois a primeira á direita, disse-me. 

Ao chegar ao seu destino a mulher estendeu-me uma nota de dez euros e, com voz de circunstância, disse-me: 
- Fique com o troco. 

O taxímetro marcava 7,80. 

Deu-me 2,20 de gorjeta com pena de mim. 

Sentiu pena, a sério, como se me cresse órfão. 

E depois voltei a fazer-me de novo com o cliente seguinte e com este passou-se o mesmo e deu-me outros 1,70 de gorjeta. 

E o próximo, também. 

Curioso, não é verdade? 
.

Sem comentários: