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O acidente deu-se a escassos dez metros do meu táxi: um veículo passou o semáforo, destroçou uma moto e o motoqueiro, derivado do embate, saiu disparado por cima do carro até embater com as costas num candeeiro e cair de cabeça.
Imediatamente chamei o INEM e saí do táxi em direcção ao corpo imóvel do condutor da moto.
Apenas sei o mais básico em primeiros socorros, mas já me tinha acontecido evitar que algum curioso ou aspirante a herói tratasse de tirar o capacete à vítima ou de remover o corpo para recobrar os sentidos (com os riscos medulares que acarreta).
Como (quase) todo o mundo sabe, se nada impede que respire com normalidade, o melhor é não mexer em absolutamente nada até que chegue o pessoal especializado e qualificado.
A ambulância chegou num ápice.
O paramédico ao tomar-lhe a pulsação, vi nesse pulso do motoqueiro, a marca de várias cicatrizes paralelas, com vários pontos de sutura ainda recentes.
Estas marcas deixaram-me mais atónito que o acidente em si (o paramédico também se precatou e optou por tomar o seu outro pulso).
O motoqueiro tinha intentado suicidar-se apenas um dia ou dois (que até poderão ser horas) antes de sofrer o acidente que não provocou.
Talvez nessa tentativa de suicídio anterior alguém conseguiu auxiliá-lo a tempo, ou fora ele que se arrependeu ao ver o sangue (uma luz ao final do túnel da sua própria alienação), ou por puro e extremo instinto de sobrevivência, ou por falta de convencimento (o suicídio resoluto, nunca falha).
Adão Cruz - Tirada DAQUI
Talvez nesse instante limite tivesse optado por voltar a nascer com mais força ou apagar os seus motivos e dar-lhe uma penúltima oportunidade à vida, se felicitasse por isso e até num dado momento conduzisse a sua moto renascido, agradecido e sem vontade de morrer, nunca mais.
É possível.
E sem dúvida cruel.
Nota final:
Desconheço se aquele homem faleceu.
Parti antes de ter notícias, constrangido por essa estranha contradição que é a vida.
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