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Nunca antes tinha visto no meu táxi uma cliente como aquela, com o cabelo pintado de loiro e as raízes, as pestanas e as sobrancelhas vermelhuscas.
Era uma dessas loiras de catálogo ou livro; com cara leitosa e sardas por todo o lado; no entanto, aquele tinto loiro conseguia standardizar e vulgarizar o seu aspecto.
De “avis rara” a “emplastro de barro”.
Quando a natureza nos presenteia com certas peculiaridades exóticas e belas (aquela jovem era bonita e sê-lo-ia ainda mais sem aquela pintura), tendemos sempre melhorá-las ou mantê-las intactas.
Mas neste caso, em lugar de explorar o seu potencial estético, a fulana preferia pertencer ao imenso rol de “loiras artificiais” correndo o risco de ser denunciada.
Talvez não quisesse sentir-se fisicamente especial senão uma mais “comum”, ou quiçá não se sentisse 'conforme' consigo mesma e necessitasse das mudanças que fez.
Daí o complexo mundo dos complexos (ou chame-se, talvez, conformismo): as loiras querem ser morenas, as morenas loiras, as de cabelo liso frisam-no e as encaracoladas, alisam-no.
Todos costumam mudar de aspecto aproveitando mudanças importantes na sua vida.
Uma nova etapa, nova coloração.
Como se o físico influísse no seu interior.
Ou como se o corante tivesse qualidades de penetrar no couro cabeludo tingindo também a sua psique.
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