O VIDEIRINHO

sábado, setembro 10, 2011

A LOIRA

.

Nunca antes tinha visto no meu táxi uma cliente como aquela, com o cabelo pintado de loiro e as raízes, as pestanas e as sobrancelhas vermelhuscas. 

Era uma dessas loiras de catálogo ou livro; com cara leitosa e sardas por todo o lado; no entanto, aquele tinto loiro conseguia standardizar e vulgarizar o seu aspecto. 

De “avis rara” a “emplastro de barro”. 

Quando a natureza nos presenteia com certas peculiaridades exóticas e belas (aquela jovem era bonita e sê-lo-ia ainda mais sem aquela pintura), tendemos sempre melhorá-las ou mantê-las intactas. 

Mas neste caso, em lugar de explorar o seu potencial estético, a fulana preferia pertencer ao imenso rol de “loiras artificiais” correndo o risco de ser denunciada.



Talvez não quisesse sentir-se fisicamente especial senão uma mais “comum”, ou quiçá não se sentisse 'conforme' consigo mesma e necessitasse das mudanças que fez. 

Daí o complexo mundo dos complexos (ou chame-se, talvez, conformismo): as loiras querem ser morenas, as morenas loiras, as de cabelo liso frisam-no e as encaracoladas, alisam-no. 

Todos costumam mudar de aspecto aproveitando mudanças importantes na sua vida. 

Uma nova etapa, nova coloração. 

Como se o físico influísse no seu interior. 

Ou como se o corante tivesse qualidades de penetrar no couro cabeludo tingindo também a sua psique.
.

Sem comentários: