O VIDEIRINHO

domingo, setembro 11, 2011

SENTIMENTOS



Um caloroso dia de trabalho, a brisa que entra pela janela, essa mistura de ar que sabe a humidade e a jasmim. 

O cheiro a Verão afastando-se sem esperança. 

Ao meu redor, solidão, a solidão das paredes nuas pela solidão, a solidão dos meus pensamentos, solidão da minha mente, solidão desperta, pensando na lembrança do ser amado que não se encontra a meu lado. 

Uma pequena gota resvala pela minha fronte e vai a estatelar-se no objecto do meu trabalho, a porta, que há que restaurar. 

Com parcimónia, a porta vai-se desembaraçando da pele que há muitos anos a cobriu e abrigou. 

Parece que a queixar-se, chateada, porque vou revelar o seu segredo. 

Já a tenho quase desnuda. 

Só resta uma parte, a parte que cobre o seu segredo. 


Recordo na minha infância, esses sulcos na terra que escondiam o tesouro do pirata de serviço, os dentes de dragão que mudavam os répteis alados, o lenço da princesa que despede o seu príncipe azul. 

O rodopiar do pião que perdia a cabeça no movimento da vida.

Quantas coisas, quanta imaginação desmedida, inocência perdida da juventude que já se começa a manifestar no meu corpo. 

As primeiras decepções, a crueldade do mundo, violento abanão na realidade. 

E de repente, com este simples e para muitos, inocente achado, acabo de me transportar a um mundo que não é nem infantil nem juvenil, talvez um fragmento da adolescência. 

Vejo aparecer, debaixo dessas demãos de esquecimento, uma forma que me é familiar, essa forma que inscrevem os namorados nas árvores, um coração tatuado e polido. 


Na minha cabeça começa a aparecer um monte de sentimentos, imagino uma jovem extasiada pelo sentimento mais belo do mundo, que sem saber da minha descoberta após todos estes anos, deixa o seu amor imortalizado nesta madeira. 

Depois desta grata surpresa entristece-me outro pensamento, essa mesma jovem escondeu o seu amor e emoção debaixo de demãos de tinta; começou com uma, mas eu retirei diversas camadas, ocultou o seu amor e emoção debaixo de demãos de esquecimento e betume. 

Mas estamos já perto do Outono e apesar dela não estar, continua a desenhar corações por toda a parte.
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