O VIDEIRINHO

domingo, setembro 25, 2011

BARRAS CODIFICADAS

 .


Agora há outro corpo ‘desplumado’ na minha cama. 

Está adormecida. 

Ou morta. 

Exibe uma pequena tatuagem na nuca. 

Não reparei nela ontem à noite. 

Cobria-a o cabelo ou talvez fosse a minha cegueira. 

É um código de barras, com as suas linhas verticais e o seu código numérico debaixo. 

Fiquei intrigado com o produto a que se referiria. 

Introduzi a sequência numérica no navegador do meu telemóvel: 7891000148105. 

É do leite em pó para bebés. 

Tirada daqui

Procuro na mesinha de cabeceira (criado mudo), no chão, debaixo da cama, no caixote do lixo. 

Não há preservativos usados, nem embalagens de preservativos abertas. 

Comprovo a caixa de 12 na gaveta; não falta nenhum. 

Ela está nua. 

Há manchas brilhantes nos lençóis. 

Sensação de vazio inguinal. 

Elementar, querido Watson. 

Afasto-lhe o cabelo do seu rosto. 

Não sei o seu nome, não sei quem é, mas recorda-me algo. 

Recordam-me os seus olhos reflectidos no espelho retrovisor do meu táxi. 

Recorda-me que parecia deprimida. 

Recorda-me de um bar. 

Recorda-me outro bar. 

E um terceiro. 

E um quarto bar...


Acerco-me devagar dos seus lábios adormecidos ou mortos. 

Encosto os meus. 

Beijo-a. 

Outro flash-back:  ao quinto whisky ela disse-me: 

- “Necessito sentir algo dentro, que se mova algo dentro de mim”. 

Pensei que era uma metáfora. 

Voltei-o-lhe o corpo adormecido. 

Ou morto. 

Apoio a minha cabeça no seu ventre. 

A minha orelha aspirando o seu umbigo. 

Oiço coisas. 

Adormeço.
.

1 comentário:

Luna disse...

estou a ver que a culpa é do código de barras.

por enquanto ainda não fui á Escócia, mas quem sabe brevemente