O VIDEIRINHO

terça-feira, setembro 06, 2011

MEIO POR MEIO

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Além de ser alérgico, também era viciado. 

E estas duas únicas debilidades do imperador, eram as que o impediam de ser completamente feliz. 

De pequeno, o consumo levemente exagerado de tão extraordinário produto produzia,  severas convulsões que muitas vezes o tinham deixado à beira da morte, mas com o tempo aprendeu ao controlá-lo. 

Soube que para desfrutar do chocolate durante toda a vida, era imperioso, antes de tudo, manter-se vivo. 


“Metade da metade de um mordisco por dia”, prometeu a si próprio e a sua perseverança foi inconcussa durante décadas até que finalmente o seu império desabou. 

No meio do imenso desespero causado pela perda, a ingestão de uma dúzia de barras de chocolate “enquanto o diabo esfrega um olho”, teve uma única finalidade. 

Mas o imperador, sem sequer sabê-lo, durante anos tinha treinado a sua imunidade e no momento de maior tristeza, conheceu por fim a felicidade completa. 


Lee Price (Elmira-Nueva York, 1966) cria óleos de mulheres vorazes, mais vítimas que amantes de merengue, chantilly, bolos, bombons e chocolates… (pinturas que parecem fotos, de ângulos que não são muito comuns; os seus quadros de óleo sobre tela são de um realismo impressionante que nos coloca em dúvida: estamos perante uma foto ou pintura?). 

Passa muito tempo só com os seus quadros. 

Confessa tolerar bem o isolamento, “ainda que passar tanto tempo em solidão torna-a consciente da necessidade do contacto humano”, costuma dizer ela. 

As mulheres que desenha – sempre auto-retratos – nos seus quadros figurativos a óleo, nunca têm mais companhia do que bolos, gelados, chocolates e demais caprichos hipercalóricos que engolem. 

À primeira vista pode parecer que desfrutam da experiência, mas a ânsia do seu comportamento apaga a alegria de comer guloseimas. 

“Estudo como a compulsão esfuma a serenidade que encontraríamos sentando-nos, simplesmente, em silêncio”. 

“Antes não mostrava a cara. 

Agora olham olhos nos olhos”. 


Desde que começou, tem observado uma mudança nesta série de mulheres ‘glutonas’: 
“A princípio as mulheres não mostravam a cara, tinham vergonha das suas acções. 

Quanto mais avança a série, maior o contacto visual que estabelecem com o espectador. 

Já não sentem culpa por ter fome. 

Com isto não me refiro só a comida, mas ao apetite em geral”, diz ela. 

Há duas características que ressaltam facilmente à vista nos quadros de Lee Price: por um lado está a fragilidade, essa hipersensibilidade emocional que faz com que a mulher procure refúgio na sua privacidade, como se o isolamento fosse a única saída ante a hostilidade de um mundo masculinizado. 

O banho, como local de máxima intimidade, converte-se no último fortim, no único lugar onde a mulher encontra o relax da água quente, quiçá, também a sua purificação. 


E por outro lado está a dual relação feminina com a comida. 

Cozinheiras históricas, mas expulsas da masculina alta cozinha, encontram-se na paradoxal situação de amar e odiar os alimentos. 

Amá-los, no sentido de criá-los, de serem peritas na herdade arte culinária, de terem uma relação milenar com eles, muito mais intensa e rica que o homem. 

Odiá-los, no mesmo sentido da proibição da maçã de Eva. 

Escravas de um mercantil estereotipo de beleza, encontram-se alienadas ante o seu próprio produto. 

Price (cuja imagens acima são o seu curioso auto-retrato) pinta-as a meio de ataques bulímicos (ou depois deles) mostrando como nos auspícios da privacidade se pode escapar à proibição paradisíaca do Eden.
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2 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

Comer sem ver a quem, é o lema de um bom chef sem "e".

xistosa, josé torres disse...

Táxi Pluvioso

... e talvez já sem calças...!