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Hoje a liberdade incomoda.
Hoje trocava o meu táxi por um autocarro.
Rota fixa, horário fixo, menu do dia, esposa pintada de loira, um filho estúpido e o Canal Hot 24.
Hoje não me apetece pensar mais além do empréstimo do carro e da casa e muito menos na lua.
Nuvens negras ofuscam a lua.
Ninguém pode controlar as nuvens.
Olha Steve Jobs.
Hoje a liberdade converteu-se numa sacanice.
Deixas voar a tua mente mas infiltram-se abutres ao cheiro do pensamento carniceiro.
Quem sou?
Que merda faço aqui?
Por que não nasci no Connecticut, ou na Terra Média?
Por que não nasci koala?
Para que serve a sensibilidade?
Que loucura é esta?
Por que chegam as nuvens justamente quando o sol bronzeia?
Flashes não controlados.
Memórias como manchas no teu registo.
Este processo não vale a pena repetir.
O meu umbigo não é um botão de RESET.
Sou crítico porque me amo.
Penso demasiado porque estou só.
Não dependo de nada, nem nada depende de mim.
Por isso o amor é um tirano, Biodramina contra os efeitos secundários do livre actuar.
O amor é um Estado mental, como Wisconsin mas em etéreo.
E pode-se encontrar em qualquer lugar e a qualquer hora.
Talvez se encontre naquela mulher que estende a roupa no segundo andar desse edifício.
É bonita.
E limpa.
E tem olheiras.
E antena parabólica.
Nota:
À mulher do segundo andar caiu-lhe um sutiã estilo "tomara que caia" enquanto estendia.
Parei o meu táxi em segunda fila e apanhei-o do chão.
Ela gritou:
- Agora caiu!
Caiu e arrastou as minhas nuvens.
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