O VIDEIRINHO

segunda-feira, setembro 26, 2011

VIVER COM O PORNO

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Suponhamos que é certo o que me contou ontem mesmo aquele passageiro no meu táxi. 

Suponhamos que conheces uma mulher, enamoras-te dela e vice-versa e que, nesse ponto de não retorno, ela diz-te que não é recepcionista de congressos, mas sim actriz porno. 

Seguindo o seu relato ponhamo-nos por um momento na pele do passageiro: 
Ele sabe que o amor dela é sincero. 

Ela assegura-lhe que se trata de um trabalho e nada mais e nos seus olhos pode-se ver que lhe diz a verdade. 

Tão-pouco será justo apartá-la de um mundo que ela escolheu antes de o conhecer e executa como muito profissional, incluso artístico. 

“Basta de preconceitos: 
A actriz porno não é nenhuma puta”, diz-lhe uma e outra vez. 

Em parte tem razão. 


E ganha muito mais dinheiro do que o que poderia obter em qualquer outro trabalho. 

Em qualquer caso, prometeu-lhe que em quatro ou cinco anos “pendurará os tacões” para sempre. 

O meu passageiro tenta conduzir a situação com extrema cautela e naturalidade. 

Mas em certos momentos não pode evitar sentir os ciúmes mais estranhos que já sofreu em toda a sua vida. 

De facto, nunca quis ver uma cena sua. 

Nem o fará. 

Não quer sequer imaginar como outros homens a penetram, ainda que sem amor, sem qualquer sentimento, mas que outros, muitos milhares mais, se masturbem do outro lado do ecrã. 


– Neste caso, que a tua mulher excite outros homens, não tem a mínima graça, diz-me. 

De facto, desde que se inteirou daquilo, a sua vida sexual com ela é tensa. 

Não pode evitá-lo. 

É belíssima, mas encontra o seu corpo sujo, frio, como um escritório vazio. 

E sente não estar à altura de qualquer dos seus actores. 

O sexo com amor é outra coisa, sabe-o, mas não pode evitá-lo. 

Mesmo sob os efeitos de todo o amor mútuo do mundo, não pode evitá-lo.
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