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Suponhamos que é certo o que me contou ontem mesmo aquele passageiro no meu táxi.
Suponhamos que conheces uma mulher, enamoras-te dela e vice-versa e que, nesse ponto de não retorno, ela diz-te que não é recepcionista de congressos, mas sim actriz porno.
Seguindo o seu relato ponhamo-nos por um momento na pele do passageiro:
Ele sabe que o amor dela é sincero.
Ela assegura-lhe que se trata de um trabalho e nada mais e nos seus olhos pode-se ver que lhe diz a verdade.
Tão-pouco será justo apartá-la de um mundo que ela escolheu antes de o conhecer e executa como muito profissional, incluso artístico.
“Basta de preconceitos:
A actriz porno não é nenhuma puta”, diz-lhe uma e outra vez.
Em parte tem razão.
E ganha muito mais dinheiro do que o que poderia obter em qualquer outro trabalho.
Em qualquer caso, prometeu-lhe que em quatro ou cinco anos “pendurará os tacões” para sempre.
O meu passageiro tenta conduzir a situação com extrema cautela e naturalidade.
Mas em certos momentos não pode evitar sentir os ciúmes mais estranhos que já sofreu em toda a sua vida.
De facto, nunca quis ver uma cena sua.
Nem o fará.
Não quer sequer imaginar como outros homens a penetram, ainda que sem amor, sem qualquer sentimento, mas que outros, muitos milhares mais, se masturbem do outro lado do ecrã.
– Neste caso, que a tua mulher excite outros homens, não tem a mínima graça, diz-me.
De facto, desde que se inteirou daquilo, a sua vida sexual com ela é tensa.
Não pode evitá-lo.
É belíssima, mas encontra o seu corpo sujo, frio, como um escritório vazio.
E sente não estar à altura de qualquer dos seus actores.
O sexo com amor é outra coisa, sabe-o, mas não pode evitá-lo.
Mesmo sob os efeitos de todo o amor mútuo do mundo, não pode evitá-lo.
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