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Tratam de minar o nosso ânimo ou pior ainda: não lhes importa pívia.
Toma nota disto: tudo está mau e será fatal amanhã.
Vale de lágrimas sobre as notícias, os especialistas com olheiras, luto constante nas vozes, luto do meu táxi…
A esperança é mentira ou convém matá-la porque senão contagia.
O optimismo não é real.
Mete-o na cabeça.
Eu não me posso divorciar se não há dinheiro.
E não me posso casar se não há empréstimo bancário para a barraca (para não dizer que é, também, para alimentar a famelga).
O comité gestor do amor estudará o teu caso.
Tremer não aqui, ali: na sala de espera.
Mas não faças barulho.
O ruído incomoda.
Os jornais são obituários com cupões.
Recorta cada dia o teu cupão com muito cuidado: não saias da linha pontilhada.
Cola os cupões, um a um, nas casas correspondentes ao teu livro da vida.
Envia um SMS para confirmar que estás nas mãos da nossa linha editorial.
Dar-te-emos um código individual e intransmissível porque tu és único.
Com esse código irás, em estrito prazo, à loja que te indicaremos, entregarás ao empregado a tua cartilha perfeitamente completada, pagarás a verba que já sabes qual é e, na volta, receberás um televisor ou um detector de radares ou um minicomputador com Z-RAM ou um secador para o cabelo ou uma placa vitrocerâmica portátil ou um jogo de pratos de Bob Esponja ou o que te aconselhamos que necessitas (*).
Só terás necessitado um mês de rios de bílis, uma mão cheia de euros, tesouras, cola e uma tarde num centro comercial para conseguires os teus objectivos.
E à saída entrarás no meu táxi e estarás marimbando-te em Passos Coelho ou no pascácio do Paulo Portas, ou ambos, em conformidade com a promoção do jornal que te calhou em sorte.
E nas tuas noites de insónia confundirás essas saliências da pintura do tecto com pastilhas de Prosac coladas nesse mesmo tecto.
Leste tudo isto bem?.
Pois é mentira.
Tudo isto é mentira.
As coisas não estão tão mal como as pintam os jornais.
A tua pele continua lustrosa e as plantas dos meus vasos crescem a um ritmo que até ‘flipas’.
E se não mastigares as borboletas chegarão intactas ao estômago.
E ontem telefonou-me um amigo que pensei ter morrido.
E acabei pela quinta vez a leitura daquele livro de Jonh Irving.
E escrevi um par de frases decentes naquela ‘boite’ indecente.
E os guionistas de “Lost” estão chilados.
E eu não estou surdo porque continuo a escutar a porra, nítida, de "Like a Rolling Stone".
E o meu táxi é pura casualidade e a casualidade é poesia e poesia é quem tu queiras que seja.
Que não te enganem os quatro “sopragaitas” ou idiotas que dizem governar o mundo (Merkel, Sarkozy, Trichet, Lagarde).
Que não te enganem os lambe-cus desse bando dos quatro.
Não te deixes deprimir.
Só querem dinheiro.
O teu e o meu dinheiro!!!
(*) Stock limitado, só até ao fim das existências; corre antes que acabe!
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