O VIDEIRINHO

sexta-feira, setembro 16, 2011

VIAGEM SEM PARTIDA

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Soa um pouco a cómico, mas encontrei a minha meia laranja em Múrcia (Espanha). 

Numa camareira, para ser mais exacto. 

O seu nome não te importa um chavo.

Com ela esfolei os meus dias de Agosto até ao último recanto do possível. 

Para inaugurar as minhas férias, entrei num qualquer bar, pedi um gin tónico, ela colocou-me um whisky e o silencioso amor fez o resto. 

Cupido costuma esconder flechas debaixo do balcão dos bares, enterradas em gelo. 

A minha futura meia laranja serviu a bebida que quis e eu dispus-me a escrever, como sempre, por baixo do “Obrigado pela sua visita”, de um guardanapo. 

A camareira, atenta aos meus movimentos, pegou, também, num bloco de notas e começou a escrever. 


Quis interpretar o seu gesto como uma sorte do Messenger imaginário: eu escrevia e imaginava que ela me respondia no seu bloco a partir do outro extremo do balcão. 

Pedi outro gin tónico e ela colocou-me à frente um rum. 

Duas tequillas, um bourbon e uma cerveja depois dos meus truncados gins tónicos começámos a falar. 

Aí soube que ela não me estava a escrever, mas sim, escrevia números: queria pedir um crédito para viajar até Estocolmo. 

Aproximei-me e disse-lhe que viajaria com ela, que “não gosto de viajar mas os teus olhos e essa cicatriz que tens no lábio e a tua surdez e o teu sotaque frio”... 

Era romena e formosa, por esta ordem. 

Nessa mesma noite, ao encerrar o bar, acedeu a viajar comigo até Estocolmo. 


Mas fizemos escala na sua cama e perdemos a noção dos aviões. 

Nos seguintes quinze dias apenas pisei o meu hotel mais para lavar os dentes e gerir o móvel-bar. 

Passei os dias a dormir a seu lado, as tardes com ela e as noites ancorado no seu balcão. 

Como um órfão lendo Freud. 

Apenas alinhavei duas linhas duma telenovela que tinha planeado escrever. 

Telefonei à minha editora e disse-lhe: 
“Estou a pôr-te os cornos”. 

Nada mais que depois de desligar, a minha camareira serviu-me o primeiro gin tónico ao fim de dez dias. 

– Por fim ganhaste-o, disse-me.

Depois chegaram as dúvidas. 


Os últimos dias de Agosto. 

Regresso ao Porto à minha vida, ao meu táxi, ao meu blog, ou liquido tudo e fico contigo? 

Ela pediu-me que ficasse, que viajaríamos juntos para Tombuctu. 

Mas os meus tomates não são tão grandes como os seus olhos, e no fundo sou um desses cobardes, os quais gostam da sua vida, do seu táxi e do seu blog. 

As santíssimas trindades não admitem poetas. 

E ela aqui, no Porto, com tanto mar, afogar-se-ia. 

Perderia a sua cauda de sereia. 

Parti enquanto ela dormia.

Deixei-lhe uma nota escrita: 
“Quero-te. Mas quero-me”.
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