O VIDEIRINHO

terça-feira, setembro 20, 2011

MAUS TEMPOS

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Nos álbuns familiares, as fotografias dos parentes mais infortunados amarelecem antes das dos outros. 

Quem é este? 

Perguntam as mais recentes vergônteas da família quase acomodada. 

A avó, que tinha uma magnífica memória, se bem que algo parcial, explicava que o fotografado era alguém de muito má cabeça, ainda que boa pessoa, que pouco a pouco deixou de fazer parte da família. 

“Há muito tempo que não o vemos”, dizia, para depois conjecturar que continuava vivo. 

Os pobres raramente guardam o dinheiro necessário para pagar a sua necrologia nos jornais. 

Oscar Wilde dizia que os parentes pobres não têm a menor ideia de quando devem morrer. 


Pois bem, transcendendo o restringido âmbito familiar ao continental, devemos reconhecer que somos o “irmão pobre da Europa”. 

Pelo menos assegura-o o semanário “The Economist”, que está convencido de que não temos sofrido a crise com maior intensidade, mas sim que a vamos sofrer quando os demais já tenham saído dela. 

Não sei por termos feito alguma coisa mal ou todas. 

Sempre que chove, clareia, mas sempre que clareia volta a chover. 

O pior não é ter um telhado de cristal ou de fibrocimento, que soa bem mais, o pior é não ter telhado. 

 
O Governo deveria aprovar uma lei de economia sustentável, mas nenhum de nós – eu pelo menos – está a fazer força para sustentá-la. 

Creio que os maus tempos nos trazem sempre os outros. 

Para isso estão os contemporâneos: para atirar-lhe as culpas de tudo. 

Em Portugal temos sido sempre especialistas em voar no vácuo. 

Com e sem asas, como as de Almeida Garrett(*). 

Que foi um grande escritor, no tempo em que não se faziam estatísticas sobre o desemprego na Terra. 

Agora estamos quase a alcançar os 13 ou 14 % (que interessa?) nesta chamada mãe proletária.


(*)AS MINHAS ASAS

Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um Anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Bati-as, voava ao céu.

– Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.

Veio a cobiça da terra.
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.

– Veio a ambição, co'as grandezas,
Vinham para mas cortar
Davam-me poder e glória
Por nenhum preço as quis dar.

Porque as minhas asas brancas,
Asas que um Anjo me deu,
Em me eu cansando da terra
Batia-as, voava ao céu.

Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,

– Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.

E as minhas asas brancas,
Asas que um Anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.

Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!

– Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei ao céu.
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