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Nos álbuns familiares, as fotografias dos parentes mais infortunados amarelecem antes das dos outros.
Quem é este?
Perguntam as mais recentes vergônteas da família quase acomodada.
A avó, que tinha uma magnífica memória, se bem que algo parcial, explicava que o fotografado era alguém de muito má cabeça, ainda que boa pessoa, que pouco a pouco deixou de fazer parte da família.
“Há muito tempo que não o vemos”, dizia, para depois conjecturar que continuava vivo.
Os pobres raramente guardam o dinheiro necessário para pagar a sua necrologia nos jornais.
Oscar Wilde dizia que os parentes pobres não têm a menor ideia de quando devem morrer.
Pois bem, transcendendo o restringido âmbito familiar ao continental, devemos reconhecer que somos o “irmão pobre da Europa”.
Pelo menos assegura-o o semanário “The Economist”, que está convencido de que não temos sofrido a crise com maior intensidade, mas sim que a vamos sofrer quando os demais já tenham saído dela.
Não sei por termos feito alguma coisa mal ou todas.
Sempre que chove, clareia, mas sempre que clareia volta a chover.
O pior não é ter um telhado de cristal ou de fibrocimento, que soa bem mais, o pior é não ter telhado.
O Governo deveria aprovar uma lei de economia sustentável, mas nenhum de nós – eu pelo menos – está a fazer força para sustentá-la.
Creio que os maus tempos nos trazem sempre os outros.
Para isso estão os contemporâneos: para atirar-lhe as culpas de tudo.
Em Portugal temos sido sempre especialistas em voar no vácuo.
Com e sem asas, como as de Almeida Garrett(*).
Que foi um grande escritor, no tempo em que não se faziam estatísticas sobre o desemprego na Terra.
Agora estamos quase a alcançar os 13 ou 14 % (que interessa?) nesta chamada mãe proletária.
(*)AS MINHAS ASAS
Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um Anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Bati-as, voava ao céu.
– Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra.
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
– Veio a ambição, co'as grandezas,
Vinham para mas cortar
Davam-me poder e glória
Por nenhum preço as quis dar.
Porque as minhas asas brancas,
Asas que um Anjo me deu,
Em me eu cansando da terra
Batia-as, voava ao céu.
Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
– Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.
E as minhas asas brancas,
Asas que um Anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!
– Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei ao céu.
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