O VIDEIRINHO

quarta-feira, setembro 07, 2011

UM HIATO

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Abro um olho. 

Tudo está escuro. 

Reconheço este olor. 

Melancia. 

Como o ambientador do meu táxi. 

Estou no meu táxi? 

Tento esticar as pernas, mas não posso. 
É apertado. 

Tacteio com as mãos. 

Toco no que me parece ser uma garrafa de óleo (reconheço essa garrafa) encaixada numa cavidade do espaço atapetado das rodas. 

Estou na bagageira do meu táxi. 

O que faço aqui? 

Não me dói nada. 

Não tenho ressaca, nem o hálito me cheira a álcool, nem noto sintomas de "pó", heroína ou pastilhas. 

O que é a última coisa de que recordo? 

Trabalhei até tarde.. 

O último passageiro de que me recordo foi um travesti que deixei num after-hours. 


Tão-pouco me dói o traseiro. 

Depois pensei ir para casa. 

Desliguei o taxímetro, apanhei a auto-estrada e soou o telefone do táxi. 

Desliguei-o. 

Quem era? 

Não me recordo. 

Procuro nos bolsos das calças. 

No esquerdo um maço de dinheiro: o apuro do dia. 

No direito encontro o meu porta-chaves com a chave do táxi. 

Primo o botão de abertura da mala. 

Abre-se. 

Estou na garagem de minha casa. 

Só eu tenho as chaves da garagem (dividem o porta-chaves com a chave do táxi). 

Olho para o relógio. 

Quinta-feira. 

Meio dia e meia hora. 


Passaram oito horas desde a minha ultima recordação. 

Sobre o banco traseiro há uma rosa com espinhos. 

Os tapetes estão manchados de purpurina e pêlos de casaco de peles. 

Subo até casa. 

Tudo está no seu local. 

O cofre intacto, a cama intacta, o meu pato de borracha "Made in Hong Kong "intacto, os meus livros intactos e o rascunho do romance da minha vida, intacto. 

Macacos me mordam, não compreendo nada.
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2 comentários:

Táxi Pluvioso disse...

As bagageiras serão as casas do futuro, mas também pagarão IMI.

xistosa, josé torres disse...

Táxi Pluvioso

Então o IMI não está incluído no estacionamento?